O que será de todos os pequenos paraísos no mundo se ninguém se importar em cuidar deles? Em Santorini e Mykonos, na Grécia, vários problemas vêm sendo revelados por conta não só do excesso de pessoas mas de atitudes que prejudicam a administração sustentável local. Burros de carga morrendo por exaustão, falta de luz e água são algumas das mazelas que o turismo desenfreado deixa como legado em terras gregas.

Viajar é maravilhoso, mas tem custado muito mais do que dinheiro em cidades como Barcelona, Veneza e Amsterdam. Com o turismo em massa carregando enxurradas de pessoas em lugares sem o devido tamanho para recebê-los, vários destinos têm enfrentado problemas com a abertura de suas portas, gerando um déficit ambiental, moral, humanitário, cultural e, consequentemente, econômico.

Pensando em alertar os turistas e buscar soluções viáveis para a população, o Quanto Custa Viajar inicia hoje uma série de reportagens sobre o fenômeno chamado overtourism. Para ilustrar a ideia, de forma absolutamente assustadora, o Daily Mail publicou uma coletânea de fotos que revelam como tem funcionado a ideia de expectativa vs. realidade.

A Grécia já soma 32 milhões de estrangeiros visitando suas ilhas maravilhosas em 2018 e o ano ainda nem acabou. O número é colocado como o maior em termos de crescimento no continente europeu ao longo da última década.

Brilhando como uma joia em pleno Mar Egeu, a pequena Santorini tem 76 km² e só em 2017 recebeu 2 milhões de turistas. No Verão, chegam a ter 12 mil passageiros saindo diariamente das gigantes embarcações e outras 2 mil de ferries que vêm de Creta, sendo que a cidade tem 15 mil habitantes no total.

Ou seja, é como se ela quase dobrasse sua população em questão de 24 horas. Os dois vilarejos mais tradicionais e turísticos ficam bem abaixo no número de moradores, sendo Oia com uma média de 1.500 pessoas e Fira, 2.100. Imaginar a situação de quando chegam os cruzeiristas é a verdadeira visão do apocalipse. Como medida de contenção, o prefeito Nikos Zorzos decidiu então reduzir o número para 8 mil pessoas desembarcando por dia, o que ainda é contestável.

“Acho que a grande culpa é dos imensos navios. Muita gente e muito pouco tempo nas ilhas. No dia que chega navio em Mykonos é uma tristeza, uma horda. Fora que a paisagem mudou demais com a presença de mais hotéis e restaurantes”, analisa a empresária A.R (que preferiu não se identificar), que vai para o Mar Egeu todo verão, desde 2010 e notou o turismo massivo da região. É muito complicado pra uma ilha receber tanta gente em tão pouco tempo e Santorini é mais delicada, pois está em cima, no alto. Para chegar lá ainda tem o trânsito, que é caótico”, Ela afirma que, por outro lado, “para o comércio deve ser muito compensador” ter essa quantidade de pessoas circulando.

No entardecer de Santorini, o sol não nasce para todos

 

De olho na concorrência por mar, veio então outra bomba para aumentar ainda mais o número de pessoas das ilhas gregas: as companhias aéreas trataram de mover suas peças para expandir a oferta de voos até Atenas, que é uma das cidades mais antigas do mundo e hub de conexão para os demais destinos do país.

Facilitando o acesso a visto e a voos diretos, a China é uma das nações que dá carta branca para sua gigantesca população viajar. Não há dúvidas de que eles têm usufruído muito de seus privilégios como cidadãos do mundo. E devem mesmo fazer isso, afinal, o direito de ir e vir deveria ser universal. Ao mesmo tempo há uma preocupação real com os turistas chineses, que quase sempre andam em bando e são conhecidos por não respeitar os lugares por onde pisam, colocando uma barreira na sua aceitação em outras partes do globo.

E xenofobia não é motivo de orgulho para ninguém. Os gregos são muitos simpáticos, agradáveis e prestativos. Mas se você é estrangeiro e mora aqui, o negócio muda. Muitos dificultam a nossa vida e fazem questão de deixar claro que somos ‘hóspedes’ ou que deveríamos ser gratos por nos permitirem morar e ganhar um dinheiro que seria deles. Acho isso feio, ainda mais vindo de um povo que foi berço da civilização, contou Thisbe Albuquerque, brasileiro que há 18 anos reside na Grécia e trabalha numa agência de viagens em Mykonos.

Sem a devida infraestrutura, é nítido que se cria uma verdadeiro campo de guerra entre os gregos e os gringos. Pequenas comunidades não encontram sua devida paz com as multidões que chegam por ar, por terra e por mar. Para os que resolvem esticar os dias de visitação e resolvem se tornar residentes, a antipatia só piora.

Junto ao número absurdo de casas para aluguel turístico, que também restringem a oferta para os próprios habitantes em busca de um lar, a abertura de novos hotéis, novos voos sendo operados em companhias aéreas e o aumento de cruzeiros atracando em destinos como esses só atrapalham a recuperação de seu fôlego antes, durante e depois a badalada alta temporada.

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A conta não fecha

Não há dúvidas de que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Será essa a melhor forma de deixar as cidades crescerem de forma saudável? Se o crescimento for exponencial, em cinco anos não haverá como conter o problema, tendo que fechar de vez o acesso como aconteceu na ilha tailandesa de Phi Phi. Pequenas ilhas e comunidades definitivamente não suportam um número exacerbado de visitantes. Uma hora a bolha acaba estourando.

Na economia, o que se observa nos últimos anos é que o turismo representa 72% da fonte do PIB de Santorini e Mykonos, porém, segundo o Banco da Grécia, a contribuição dos cruzeiros não impacta de forma significativa o país em relação aos viajantes que chegam por outros meios. Em 2016, a Grécia recebeu 783.893 cruzeiristas, mas, na divisão dos lucros pela renda per capita há como resultado apenas 55 euros adquiridos por passageiro durante a estadia célere.

Afundado em dívidas, o país enfrentou uma dura crise até, pelo menos, este ano, quando não apenas conseguiu uma boa reserva monetária oriunda dos estrangeiros como também um acordo que reestrutura sua dívida elevada com a Zona do Euro. Por outro lado, o crescimento acelerado saturou a infraestrutura e os top destinos da Grécia, criando um verdadeiro paradoxo. Haverá quanto de lucro se, a médio e longo prazo, houver custos para reparar danos deixados pelo rastro do turismo predatório?

Dois vilões das ilhas na mesma imagem: cruzeiros e humanos que utilizam burros para subir enormes ladeiras

A Universidade de Aegean tem um curso e um departamento dedicados ao turismo sustentável, assunto ainda a ser profundamente estudado pelo governo local. Em estudos, constataram que havia apenas 3.755 casas em Santorini em meados de 1971, número que aumentou para 13.528 por volta de 2011, quando foi feita a pesquisa. Sem planejamento adequado, a cidade ficou com problemas de abastecimento de água e energia, tratamento de esgoto e de lixo. O aumento populacional também impacta diretamente no tráfego, poluição sonora e ambiental.

“O que me incomoda especificamente em Mykonos é o que dizem que atrai os turistas: o lado rústico. Traduzido em outras palavras, seriam os problemas sérios de saneamento básico, ruas com buracos, o lixo, que vilas desse porte possuem”, contou Thisbe. E são exatamente essas coisas que ele acredita ser prioridade do governo.

“Já que estão aumentando a quantidade de turistas que recebemos em Mykonos, deveriam no mínimo resolver os problemas básicos de saneamento, falta de água, lixo e a falta de um hospital na ilha. É um crime uma ilha que recebe tantos turistas todos os anos não ter um hospital.”

Essa questão é tão absolutamente urgente no país, que em setembro chegou ao ápice: a morte de uma turista de 74 anos devido à falta de ambulância noturna na ilha de Kalymnos. Alarmando o caso, o país é alvo de críticas por causa da precariedade de médicas, equipamentos e remédios, colocando em risco não apenas a vida de visitantes, mas da própria população.

Resultados

Pensando em soluções urgentes e ainda assim viáveis, a Organização Nacional de Turismo na Grécia (GNTO) declarou ao The Guardian que estão trabalhando na “extensão da temporada de turismo de verão e no desenvolvimento do turismo temático que atrai visitantes durante todo o ano”. Segundo eles, já houve um aumento de 27% na Primavera e 33% no Outono, o que não significa que o país não continue lotado no famigerado verão europeu.

Creta, Corfu e Rhodes são atualmente as outras ilhas mais visitadas da Grécia e tampouco escapam da linha de saturação. Atenas, que é maior, ainda segura a onda, mas segundo especialistas, não por muito tempo. Inclusa no trajeto de cruzeiros, recebe no Porto de Piraeus mais de 1 milhão de passageiros. Para espalhar os turistas, também vem sendo trabalhada a divulgação de destinos alternativos e de iguais encantos, como a Ilha de Paros, Naxos e Kythnos.

Nossa entrevistada A.R recorda que a viralização de conteúdo nas redes sociais, que são totalmente fluídas e descontroladas, também contribui com a lotação. “O Instagram é uma faca de dois gumes. Mostra muita coisa linda, mas aí todo mundo quer. Um exemplo é Milos e Zakynthos, onde não dá nem pra tirar fotos mais”.

Em quatro anos de diferença desde a sua última visita a Milos, ela afirma que foi o destino mais impactante. Nunca vi um lugar mudar tanto em tão pouco tempo. É gente que não acaba mais! Acredito que seja por causa de Sarakiniko, que é a coisa mais linda do mundo, mas só consegui ir por volta das 17h, porque antes você simplesmente não consegue andar na praia”.

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Enquanto medidas de controle têm sido aplicadas como o principal remédio para a deterioração de recursos, não há dados que apontem sua eficiência. Afinal, continuar recebendo pessoas com zero noção ambiental e cultural não soluciona o ciclo desastroso de multidões ocupando o mesmo metro quadrado. Assim como injetar cada vez mais dinheiro em empreendimentos, sem antes ajustar os problemas básicos e sem medidas de fato sustentáveis, também não vai trazer de volta a calmaria.

Para adicionar ainda mais drama nessa história, em meados de agosto começaram a circular nas redes sociais vídeos chocantes mostrando burros e mulas simplesmente desmaiando com o calor e a locomoção constante de turistas ao redor de Santorini.

Foi então que grupos de ativismo animal, como o Peta, conseguiram jogar luz para as vítimas de maus tratos. Porém, a medida tomada pela Prefeitura é um tanto controversa: ao invés de proibirem o meio transporte, proibiram que sejam transportadas pessoas ou cargas acima dos 100 kg. Quem se arriscar, corre risco de pagar multa. Gordofobia resolve o problema? Além de criar um problema de caráter preconceituoso e excludente, tampouco resolve a questão, afinal, os burros vão continuar sua saga sob as mesmas condições, servindo aos demais turistas.

No final das contas, essa é mais uma prova de dois pesos e duas medidas. É assim, por quilo, que se testa os limites de uma nação? Talvez o primeiro aprendizado seja o de incluir boas doses de consciência nessa balança.

Fotos via

Antes de fazer as malas, entenda o que é o turismo consciente e por que é tão urgente

4 comentários

  1. Entramos na grecia em outubro pela ilha de corfu e velejamos ate chios passando por diversas ilhas. Entre elas Paxis, Ithaki, corintho canal, aegina, hydra, kithnos, paros, naxos, delos, Mikonos, agios e chios.

    Tivemos a sorte de pegar fim de temporada e com isso os lugares completamente vazios. No nosso instagram da pra ver @sailingaw acho que uma melhor distribuicao das pessoas ajuda as ilhas viverem em equilibrio. Essa coisa se ir com multidao é so stress. Perde um pouco do calor, mas ganha a sensacao de exclusividade.

  2. expectativa x realidade

    os brasileiros têm loucura por fotos tiradas no Hotel Cavoo Tagoo em Mykonos…. de 2 anos pra cá, é onde blogueiras e globais se hospedam ( pra mim só podem ganhar a hospedagem) ….. eu já me hospedei lá em 2014. Hotel é sensacional….. mas nas fotos, ninguém mostra o que tem após a piscina “de fundo infinito” #sqn rsrs ….. é vista pro porto….. muvuca de ônibus, ferrys e navios quase que 24hs na temporada 😉

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