A revoada de araras azuis de Lear em meio à paredões alaranjados marcam a paisagem inóspita de Raso da Catarina, na Bahia, que poderia facilmente ganhar o título de Grand Canyon brasileiro. A natureza da região de Canudos é tão generosa quanto, contemplando o bioma semiárido mais biodiverso do mundo.

Com chuvas que demoram anos para acontecer e temperaturas que chegam a 40 graus, o trecho do sertão baiano por vezes afasta os humanos, ao mesmo tempo em que preserva cerca de 180 espécies ameaçadas de extinção, como Maria-preta-de-garganta-vermelha, siriemas, jacupembas, catitus, entre outras.

Magnífica e em risco constante, a região luta constantemente contra pressões de caça, retirada seletiva de madeira, invasão para criação de gado bovino e caprino, e queimadas e tráfico de animais silvestres.

O biólogo Thieres Pinto, que já esteve por lá diversas vezes, explica ao Quanto Custa Viajar o que torna a região e suas espécies vulneráveis. “A caatinga é um ambiente seco, com vegetação bem específica e adaptada ao clima semi-árido. É um dos biomas de ocupação mais antiga, alterado ao longo do tempo, fazendo com que não exista feições originais. Todos esses fatores juntos tornam sua recuperação difícil e fragilizada.”

Formações rochosas esculpidas pelo vento lembram castelos, torre e bispo do tabuleiro de xadrez e até catedral gótica. Foto: reprodução/agência atendtur

A porta de entrada para a aventura é Canudos, mesma cidade onde aconteceu uma guerra sangrenta no século 19 e imortalizada na obra ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha, a cerca de 395 km de distância de Salvador e a 192 km de Petrolina (PE), onde há um aeroporto.

A revoada das aves da Serra Vermelha, como a endêmica Arara Azul de Lear, é uma das atrações turísticas da Estação Biológica de Canudos, área de 1.500 hectares mantida pela Fundação Biodiversitas. É na Toca Velha que as aves encantadoras se escondem, ao mesmo em que se exibem aos visitantes, que usam trajes discretos para não espantá-las.

Serra Vermelha tem paisagem colorida por tons avermelhados e ocres, como se fosse o planeta Marte. A paisagem muda quando acaba o período de estiagem. A chuva que molha o chão faz brotar o tímido verde da vegetação.

Para vê-las é preciso encarar a saga de sair às 4h da matina a bordo de um veículo 4×4 rumo ao parque. Chegando lá, é hora de pegar uma trilha até o ponto de observação, mais próximo de licurizeiros, palmeiras favoritas das araras. O coquinho Licuri serve de alimento e depois vira material de artesanato ecológico, gerando renda para mulheres da comunidade local.

Os paredões de arenito que compõem o cânion seco da Baixa do Chico, dentro da Reserva Ecológica do Raso da Catarina, se estendem por 12 km, entre cactos e outros exemplares da vegetação rasteira.

A comunidade do Raso da Catarina é formada basicamente por vaqueiros, famílias sertanejas e índios Pankararés, que mantêm a natureza praticamente intacta. Assim acabou atraindo, desde meados de 2014, as araras azuis, que fazem do cânion sua morada, transformando-o num outro ponto de observação nas primeiras horas da manhã.

Outros passeios na região

Toca da Barriguda: bela caverna dentro do Parque Nacional do Boqueirão da Onça, repleta de estalactites e estalagmites, cheia de labirintos e galerias subterrâneas. Tem 33 km de extensão, sendo uma das maiores do país, e pode ser conhecida com auxílio de guias.

Foto: Hugo Vieira/ICMBio

Ruínas de Canudos: a cidade de Canudos se reestruturou diversas vezes ao longo dos anos, seja por conflitos que a destruíam ou por causa da cheia do açude de Cocorobó, um paradoxo ao se tratar de um dos lugares que mais sofre com a seca.

O vilarejo em ruínas, conhecido como Canudos Velha, passou a ser atração turística no século 20, em especial a Igreja de Santo Antonio, construída por Antonio Conselheiro em 1893. O local, porém, desaparece e some, a depender do nível da água.

Foto: reprodução/Viva o Sertão

Açude de Cocorobó: a represa rodeada por verde e com alguns morros no horizonte é um dos principais atrativos de Canudos. Ali se faz passeios de barco, se avista as ruínas – quando estão com algum pedaço visível – e esperar por um belíssimo pôr do sol, que pode ser apreciado da passarela.

Os visitantes que têm espírito de aventura acabam subindo até o alto da Serra do Cocorobó por uma trilha de dificuldade média. O caminho mais fácil para ter um visual bacana, porém, é pelo Mirante de Canudos, que tem estacionamento, uma igrejinha, bar, restaurante e artesanato.

Museu Histórico de Canudos: os restos da guerra estão na memória do museu histórico da cidade, localizado no povoado de Canudos Velho. Artefatos e outros objetos da época fazem parte do acervo de Manoel Travessa, que os encontrou durante as pescas no açude. É pequenino porém peculiar, resguardando itens que contam um episódio que mudou os rumos da história.

Serra do Umbuzeiro: a cerca de 20 km de Paulo Afonso, o município vizinho, está outra maravilha natural. A Serra do Umbuzeiro é formada por rochas de arenito esculpidas pelo vento, cavernas, grutas e pinturas rupestres. Em seu ponto mais alto, a mais de 500 metros de altura, se avista toda a beleza pitoresca da paisagem semi-árida e da cidade.

Prainha de Canudos: dentro de uma área particular, a prainha tem horário de funcionamento, mantendo-se aberta ao público diariamente das 7h às 18h. Alem da água cristalina do rio, a área de lazer conta com piscina, bebidas e comidas.

Parque Belvedere: também conhecido como Jardim dos Namorados, o parque de Paulo Afonso, a 180 km de Canudos, é um ponto de lazer onde famílias se reúnem para piquenique e descanso. A área é bem cuidada e recebe eventos musicais como o Jazz Festival, em novembro.

Cânion do Rio São Francisco: se estar às margens do Velho Chico já é bom, imagina navegar por ele. Os passeios de catamarã que passa pelos enormes paredões do cânion do rio São Francisco duram 3 horas, com direito a parada para os banhistas curtirem um mergulho. Na beira das águas se formam pequenas praias fluviais. Uma jornada inesquecível em um dos lugares mais bonitos do Brasil!

Ponte do Parque D.Pedro II: a ponte metálica que liga Alagoas e Bahia na BR-110 tem uma vista deslumbrante para o rio São Francisco. Foi construída em meados de 1950, tornando-se ícone da cidade de Paulo Afonso e também ponto de adrenalina para saltadores de bungee jump, base jump e rapel.

Foto: divulgação/ASCOM-Agência Nacional de Águas

Quanto Custa

A entrada no parque da Toca Velha custa R$ 150 por pessoa, incluindo um guia licenciado. Não é possível visitá-lo por conta própria.

O acesso na reserva do Raso da Catarina custa R$ 20 por pessoa. Passeios têm valores sob consulta e devem ser agendados previamente para atender a normas do Ibama e da Funai.

Já a visitação no Parque Estadual de Canudos é gratuita.

Foto: Thieres Pinto

Onde ficar

A cidade com melhor infraestrutura turística é Paulo Afonso, conhecida como o “oásis do sertão”, característica ressaltada pela riqueza hídrica do rio São Francisco, que a margeia. Confira abaixo algumas opções de hospedagem para a região de Raso da Catarina:

Hospedagem em Canudos:

Foto: divulgação/Pousada e Balneário Beira Rio

Como chegar

Bom, já deu pra imaginar que chegar até a reserva ecológica de Raso da Catarina exige tempo e disposição. O acesso até Canudos é mais fácil via Paulo Afonso, a 180 km de distância, que conta com voos regulares e pode ser uma opção de base para os viajantes. Inclua também Petrolina, a 190 km de distância, na sua pesquisa de passagens aéreas.

Para quem vai a partir de Salvador, prepare-se para encarar 6 horas de estrada, pelas vias BR-116 e BR-235. Você pode alugar um carro na cidade tranquilamente.

Se for de ônibus, dá para ir direto até Canudos ou pegar um transporte para Feira de Santana, onde há mais opções de horários, e depois seguir até Canudos, Caldas do Jorro ou Paulo Afonso, dependendo do destino onde for a hospedagem. As viações São Luiz, Expresso Maringá, Falcão Real e Gontijo realizam o percurso.

O valor das passagens fica entre R$ 60 e R$ 85 reais por trecho.

Foto: divulgação/Bahia Turismo
  • Foto em destaque no topo da matéria: Gil Ewig

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