Minimalista de mão cheia e mala quase vazia, Caroline Abreu é o rosto por trás do Parece Óbvio. Com foco em desenvolvimento pessoal e minimalismo, o site traz dicas para quem busca adotar este estilo de vida.

Recentemente, ela e o marido Henrique voltaram de um mochilão minimalista – o segundo do gênero na vida do casal. Através do Whatsapp, nós batemos um papo sobre essas andanças sem excessos pelo mundo.

A entrevista com a Caroline marca também a estreia de uma nova série aqui no Quanto Custa Viajar: “O Mundo é Dela“, uma oportunidade de contarmos as histórias de mulheres incríveis que estão redefinindo o conceito de viagens de um jeito muito especial. ♥

Vamos começar?

Viagem minimalista, com Caroline Abreu

Equipe Quanto Custa Viajar – Quando começou a viajar você já tinha um estilo de vida mais minimalista?

Caroline Abreu – Eu não conhecia o minimalismo quando eu comecei a viajar. Bem pelo contrário, eu era uma pessoa bem diferente do que eu sou hoje no sentido de que eu era muito mais apegada às coisas e grande parte das minhas viagens eu dedicava a compras e a passear em lojas, coisas que hoje eu não faço mais.

Antes eu viajava com uma mala e eu sempre ia com aquela mala já meio vazia pensando em tudo que eu poderia comprar para encher ela e trazer de volta. E eu voltava com duas, porque todas as vezes que eu viajei antes de conhecer o minimalismo, eu acabava comprando uma mala extra só para colocar todas as coisas que eu tinha comprado. Era realmente um excesso, algo que não era saudável, não era normal. Olhando para trás hoje eu fico meio chocada em como é que eu não percebia que aquilo estava errado, sabe?

A minha mentalidade era de que “ah, estou aqui, não sei quando eu vou voltar, se um dia eu vou voltar, então vou aproveitar e comprar tudo o que eu posso”. E também o euro e o dólar eram mais baratos naquela época, então Isso facilitava bastante.

QCV – O que mudou na maneira de viajar depois de ter aderido ao minimalismo?

Caroline – Um dos primeiros estalos que tive quando conheci esse estilo de vida é que mesmo tendo sido essa viajante que comprava muito, que organizava muito da sua viagem em torno do rolê das compras, a maior lembrança que eu tinha dessas experiências não envolvia o que eu tinha comprado, envolvia os lugares que eu tinha visitado, as pessoas que tinha conhecido… As compras, grande parte delas eu já não tinha mais… já tinha passado adiante, doado ou vendido. Enfim, não era isso que ficava, sabe?

Hoje em dia, eu organizo os meus roteiros muito mais em função do que eu quero fazer e não do que eu quero comprar. Antes eu poderia incluir um dia no meu roteiro para ir num shopping ou visitar lojas de fast fashion. Hoje eu não faço mais isso. Não quer dizer que eu não vou na loja. Pode ser que eu vá, mas é só se eu estou na frente dela. Eu não mudo o meu roteiro para incluir algum rolê de compras.

Outra coisa foi a questão da bagagem. Eu percebi que, além de não precisar comprar, eu também não precisava levar muita coisa que eu levava de casa, porque assim como as compras não eram uma lembrança que ficava das minhas viagens, a roupa que eu estava vestindo também não era a lembrança que ficava. A lembrança era o que eu tinha vivido. Então eu consegui também enxugar bastante a minha bagagem. Inclusive consegui começar a viajar de mochila, que era uma coisa impensável antes de eu conhecer o minimalismo.

QCV – E como foi que você conheceu o minimalismo? 

Caroline – Eu conheci o minimalismo e comecei a implantar todas essas mudanças na minha vida depois que eu assisti ao documentário do Netflix. “Minimalismo” é o nome, feito pelos The Minimalists. O documentário e a mensagem que ele trazia só fizeram sentido para mim porque eu estava vivendo um momento em que eu estava perdida profissionalmente, tinha acabado de terminar uma faculdade e estava buscando um novo objetivo para minha vida.

Eu estava num período bem de crise pessoal, por dizer assim. Inclusive fui diagnosticada com depressão naquela época. Quando assisti o documentário, aquela mensagem de que a gente poderia encontrar a felicidade e contentamento vivendo com menos e que talvez toda essa busca por ter mais e mais não fosse realmente nos trazer felicidade fez muito sentido para mim. Assistir o filme em um momento da minha vida em que tudo o que eu costumava buscar parecia não fazer mais sentido foi o grande start dessa minha transição para uma vida minimalista.

Depois que eu assisti o documentário, que aquela mensagem fez sentido, eu comecei a procurar mais conteúdos na internet e livros que tratassem sobre o assunto para eu entender cada vez mais sobre isso e como eu podia aplicar isso na minha vida e no meu dia a dia.

QCV – Depois dessa transição, qual foi a primeira viagem em que você sentiu que estava aplicando o minimalismo à maneira de viajar?

A partir do momento que eu conheci o minimalismo e comecei a tentar colocar ele em prática na minha vida, eu comecei a olhar para tudo com esse viés. A primeira vez em que o caminho da minha vida minimalista se cruzou com as viagens foi alguns meses depois que eu assisti o documentário. Eu e o Henrique fomos para o Rio de Janeiro com um dinheiro que a gente juntou da venda de coisas que a gente tinha paradas em casa.

Então, quando eu conheci o documentário, além de parar de comprar e ser mais consciente nas compras que eu fazia, eu comecei a olhar muito pro que eu já tinha em casa. Nesse olhar para o que eu já tinha em casa,, eu fiz aqueles famosos destralhes, como se diz universo minimalista.

Muitas coisas eu tirei para doação e muitas coisas ainda estavam novas ou pouquíssimo usadas, e aí eu optei por vender tudo, sempre por um valor bem abaixo do que seria se pessoa comprasse numa loja, um valor bem simbólico, que ajudava a pessoa que tava comprando e também me ajudava. Para ter uma noção de quantas coisas eu tinha paradas que eu podia vender na minha casa, juntando todo dinheiro que a gente arrecadou com essas vendas, a gente conseguiu ir passar três ou quatro dias no Rio de Janeiro. Fomos eu, o Henrique e o Otávio (cachorro da Carol), todos de avião. Pagamos as passagens, as diárias, tudo com esse dinheiro que a gente arrecadou.

Foi uma viagem que a gente não teria feito se não fosse essa mudança de vida que nos fez olhar pro que a gente já tinha em casa e vender isso e reverter o dinheiro. Foi o maior exemplo de como é importante a gente focar nessa ideia de colecionar momentos e não coisas, porque o mesmo valor que eu tinha parado nos meus armários em coisas que eu nunca usava, se transformou em três dias muito legais, numa cidade que a gente adora e que ficou uma lembrança muito bacana, porque a gente foi com o nosso cachorro, a gente participou de um encontro de Chihuahuas no Rio de Janeiro… Foi muito legal essa primeira experiência.

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A viagem depois dessa do Rio foi para o Atacama, daí já foi a primeira vez que eu me animei a compartilhar uma mala com Henrique. A gente ainda não viajava de mochila, mas já dividiu a mesma mala, não levamos dois volumes. Acho que o principal, além da bagagem, é a questão de que levar um estilo de vida minimalista no meu dia a dia quando eu estou em casa me permite viajar muito mais. E quando eu viajo me permite viajar com muito mais qualidade, porque eu não preciso estar economizando cada centavo porque, além de eu ter mais dinheiro que deixei de gastar em outras coisas, eu valorizo o valor dessas experiências que eu posso ter quando eu estou em outro lugar.

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QCV – Como você vê essas mudanças nas viagens que faz hoje? Recentemente vocês fizeram um mochilão minimalista, que não foi uma viagem tão curta assim… Pode contar um pouquinho sobre como foi a organização dessa mala de viagem?

Caroline – Agora a gente viaja de mochila e nós já fizemos dois mochilões mais longos. No ano passado, a gente fez uns 26 dias e o desse ano não chegou a 20. Na verdade, começar a viajar de mochila foi meio que um resultado de ter começado a viver um estilo de vida minimalista. Foi aos poucos.

No Atacama, a gente ainda foi com uma mala de rodinha, mas a gente dividiu a mala. Aí, no primeiro mochilão que a gente fez, a gente comprou uma mochila e achou que estava investindo naquela mochila para a vida. Compramos uma mochila de 70 litros e aí, depois desse mochilão de 20 e poucos dias, nos demos conta de que não precisávamos de uma mochila tão grande. Aí vendemos a nossa mochila e compramos uma menor pro segundo mochilão, então até na questão das mochilas teve uma evolução.

A mochila eu sempre faço por etapas. Sempre penso em quantos dias eu vou passar no lugar, olho a previsão do tempo e meio que já monto o que vou vestir em cada dia. Eu faço isso sempre com bastante antecedência da viagem, tipo duas semanas. Até o dia em que vou embarcar, eu vou refinando a minha mala e tirando coisas.

Fazer uma mala minimalista talvez seja mais trabalhoso do que fazer uma mala não minimalista, mas é um investimento de tempo. Ao mesmo tempo em que vou passar menos trabalho carregando menos peso, eu também vou passar menos tempo durante a viagem escolhendo qual roupa vestir, porque eu já vou sabendo o que vou vestir.

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QCV – Na viagem em si, mudou alguma coisa para que ela pudesse ser mais minimalista?

Caroline – Uma coisa que mudou quando eu vou pensar no que levar para essas viagens mais longas é que eu comecei a lavar roupa durante a viagem, que é uma coisa que eu não fazia antes. Percebi com essas minhas experiências nos mochilões que é um tempo que eu gasto ali em volta da máquina de lavar e da secadora, que ele compensa eu perder esse tempo durante a viagem, lavando as minhas roupas, por toda a praticidade que ele me dá e o conforto que ele me dá por eu não carregar tanto peso nas costas. Porque quando a gente viaja de mochila, a gente tem que sempre lembrar que cada peça de roupa, cada coisa a mais, vai pesar nos nossos ombros. Por mais que aquilo não pareça tão pesado no início da viagem, no final da viagem parece que o peso duplica e dói as costas. Então o fato de viajar com a mochila nas costas me tornou muito mais consciente dessas escolhas e me fez procurar por alternativas, sendo lavar a roupa durante a viagem uma delas.

O minimalismo também entra na hora em que eu penso no meu roteiro no lugar. Hoje em dia eu sou muito menos apegada a pontos turísticos e lugares que você “precisa conhecer” em tal cidade, sabe? Porque eu já entendi que tem coisas que eu curto e tem coisas que não, independente de ser famosa ou não a atração. Então na hora que eu estou pensando no que eu quero conhecer em uma cidade que eu vou visitar, às vezes eu acabo deixando de fora algum lugar super turístico e incluo um lugar que não é tão conhecido assim, mas que tem mais a ver com o que eu curto fazer. Isso é outra coisa que o minimalismo veio a mudar nas minhas viagens. Antes eu era mais de me importar com essas coisas que todo mundo está fazendo, que todo mundo está visitando…

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QCV – E como é que o Parece Óbvio surgiu nessa nova etapa?

Caroline – O Parece Óbvio surgiu um pouco depois que eu conheci o minimalismo e comecei essa mudança, porque foi muito transformador para mim começar a pensar dessa outra forma e perceber que eu andava buscando ter mais e mais coisas, mas eu nunca tinha parado para refletir se era realmente aquilo que eu queria e que eu precisava, sabe?

Abrir os meus olhos para isso foi muito transformador e eu pensei “Nossa mais pessoas precisam saber disso!”. E, como eu sou jornalista, eu sempre tive vontade de ter um projeto próprio para compartilhar alguma coisa, mas eu nunca conseguia encontrar um assunto que realmente me motivasse, que eu realmente acreditasse, como o minimalismo foi. Aí o Parece Óbvio surgiu dessa vontade de compartilhar para que mais e mais pessoas consigam também se questionar e refletir sobre a forma como elas levam a vida delas e, quem sabe, também mudar e fazer uma transição para um estilo de vida mais minimalista.

QCV – Você teria algumas dicas para quem não é necessariamente minimalista, mas está buscando aderir a um estilo de viagem pelo menos um pouquinho mais minimalista?

Caroline – Acho que muitas pessoas hoje em dia estão tendo que aplicar o minimalismo nas suas viagens até de uma maneira meio involuntária, porque fazer compras no exterior hoje em dia já não é mais como era antigamente por causa do preço do dólar e do euro e também por causa da questão da restrição das bagagens das companhias aéreas.

E, como para muitas pessoas enfrentar essas limitações pode ser um desafio, a maior dica que eu tenho é que, antes de fazer uma viagem, elas tentem resgatar as lembranças delas de viagens anteriores e pensem no que ficou marcado. Eu aposto que lembranças de compras ou lembranças do tamanho da mala que a pessoa levou nunca vão ser as que vão se sobressair, vai ser sempre alguma coisa relacionada a experiências.

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Se conscientizar de que o importante em uma viagem é o que a gente vive e não o que a gente carrega é o primeiro passo. O segundo é ser consciente na hora de fazer a mala não deixar para última hora e assim poder avaliar cada uma das coisas que vai colocar dentro dessa mala, dessa mochila para levar. Pensar se é realmente necessário, se o benefício que isso vai me trazer eu levando essa mala compensa o tamanho, o peso que ela tem, o espaço que ela vai ocupar… Primeiro é criar essa consciência e depois não deixar para fazer as coisas na última hora, porque quando a gente faz com mais calma, consegue ser mais consciente.

Falando especificamente sobre a questão da mala, além de não deixar para última hora, fazer tudo com no mínimo uma semana de antecedência e seguir os seguintes passos: primeiro pensar em tudo que gostaria de levar e separar tudo que gostaria de levar; aí começar a ir filtrando o que é realmente necessário e o que não é. O meu método mais ou menos é ver quantos dias eu vou ficar no lugar, olhar a previsão do tempo desses dias e aí eu já meio que programo o que eu vou vestir em cada dia, sempre tentando aproveitar o máximo possível de cada peça. Se eu vou levar uma calça preta, tento usar ela durante vários dias. E daí eu levo duas calças e cinco blusas, e já posso fazer um jogo com essas peças. Sempre tentar escolher peças versáteis, que podem ser combinadas entre si e levando em conta a questão da temperatura e de quantos dias eu vou passar. Sempre levo uma ou duas opções a mais do que o exato, porque imprevistos acontecem. Às vezes a gente vai querer mudar de roupa ao longo do dia, mas esse é basicamente meu método.

Primeiro botar em cima da minha cama ou em qualquer lugar tudo que eu quero levar e aí, depois que eu escolhi tudo que eu quero levar, eu vou filtrando de acordo com o meu roteiro, com o meu cronograma. ⊗

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