Motivos não faltam para querer sair do Brasil e jogar a chave fora. Estamos na rota da extrema-direita mundial, você provavelmente brigou com uma porcentagem razoável de amigos e familiares durante as eleições de 2018 (e com outra parcela durante a existência infame de 2019), nossa moeda foi a mais desvalorizada do mundo nos últimos meses… e essa lista não acabaria nunca.

Diante de tantos desacontecimentos, a perguntinha que eu mais ouço é: vale a pena se mudar para a Europa?

Pode ser que tenha uma vozinha na sua cabeça repetindo o mantra “preciso dar o fora daqui” antes da ditadura. Se for isso, bem-vindo ao clube! Eu também já vivi essa fase.

Em janeiro faz um ano que me mudei para a Espanha com dog e tudo – vem ver como levar seu pet para uma viagem internacional. Agora estou aqui compartilhando um pouco das experiências e reflexões sobre esse período no Velho Continente para, quem sabe, te ajudar a tomar uma decisão consciente antes de sair fazendo as malas como se não houvesse amanhã.

Ok. Talvez eu não seja a pessoa certa para dizer se vale a pena se mudar para a Europa. Mas será que existe uma pessoa certa?

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“Should I stay or should I go?”

Morar na Europa não é um sonho

Vamos ser sinceros: você não quer só sair do Brasil. Você quer morar naquela Europa de filme que todo mundo ama.

Só que **spoiler alert* * ela não existe!

Portugal, Espanha, França, Itália, Irlanda, Inglaterra… Tudo maravilhoso, né? Bom, nem tanto. Eu te prometo que cada um desses países tem um monte de problemas, mas eles têm também uma qualidade que é quase imbatível: equilíbrio social.

Isso significa que, se você preparar seus documentos bonitinhos, fizer a papelada toda e conseguir um trabalho, vai dar pra viver legal. É sério: zero boletos sem pagar e com direito a sair pra jantar sem culpa no fim do mês, nem que seja no boteco da esquina.

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Ooops... não existe boteco da esquina. Não vai ter coxinha, arroz com feijão, cerveja 600 ml para dividir com os amigos. Isso, claro, se você der sorte de ter amigos.

A maioria das pessoas que vivem fora do país com quem eu converso não chegam a criar uma rede forte de amigos como a que tinha no Brasil. Muitos conhecem alguns outros brasileiros com quem convivem de vez em quando e acabou o papo.

No meu caso, escolhi uma cidade especialmente difícil nesse quesito. Girona tem a merecida fama de ser um lugar em que as pessoas são fechadas. Com 100 mil habitantes, eu já devo conhecer pelo menos uns 10% dos moradores. A gente se dá bom dia e boa tarde, mas não posso somar nenhum amiguinho pra conta.

Claro que o fato de que eu não falo com fluência o idioma mais comum na cidade (catalão) influencia nisso. E o fato de não estar trabalhando formalmente também, mas a gente fala mais sobre trabalho ali embaixo.

Há vários anos eu morei um período na Irlanda e a situação foi parecida. Eu tinha vários amigos, mas eram quase todos brasileiros ou de outros países latinos.

Ou seja: quer um conselho? Antes de se mudar para a Europa, decida bem em que país/cidade quer morar e estude MUITO o idioma e a cultura local.

Veja filmes, ouça músicas, leia, aprenda sobre a história do lugar que você vai chamar de lar. Isso vai acelerar bastante a sua integração.

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Trabalho

É o que todo mundo quer saber. Dá para encontrar trabalho? Eles contratam brasileiros? Como é o salário?

Em primeiro lugar, é claro que dá para encontrar trabalho. A facilidade com que você vai achar uma vaga vai depender do país e da cidade escolhida para viver, da sua área e da experiência profissional.

Aqui na Espanha, por exemplo, Barcelona e Madrid concentram as melhores vagas. Girona, onde eu vivo, também tem trabalho com turismo e em restaurantes (há vários estabelecimentos estrelados na cidade).

Cada país terá seus núcleos, com cidades que são mais fáceis para determinada profissão ou não. Várias cidades oferecem vagas em fábricas ou no setor de serviços.

Se você vem para o que der e vier e tanto faz ser CEO de multinacional ou limpar chão, escolha sempre cidades grandes, pois é onde há mais oportunidades (e mais concorrência também!). Mas, se você sabe exatamente o que quer da vida, cola no Infojobs ou faz uma boa busca no LinkedIn.

As duas redes divulgam vagas em diversos países da Europa e você pode pesquisar quais cidades/países oferecem mais oportunidades no seu setor, por exemplo.

Lembre-se de que, a não ser que você seja um profissional muito especializado, pode ser difícil conseguir trabalho antes de chegar ao país, mas você pode deixar algumas entrevistas agendadas já para as primeiras semanas.

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“Quer dizer que as pessoas também trabalham na Europa?”

Visto de trabalho

Ou você tem ou você não tem.

Aqui no Quanto Custa Viajar, nós não aconselhamos ninguém a sair do país pensando em viver e/ou trabalhar ilegalmente.

Informe-se sobre todas as opções de visto para o destino desejado. Em alguns lugares é possível trabalhar com visto de estudante (foi o que fiz na Irlanda), noutros locais há empresas que “patrocinam” o visto de profissionais com alta qualificação.

A Estônia tem programas que facilitam a contratação de profissionais estrangeiros que querem trabalhar em start-ups, por exemplo. Também há destinos que permitem a retirada de um visto como profissional autônomo.

Aqui na Espanha, eu tenho hoje visto de residência por ser casada com um cidadão europeu, o que facilita muito a minha vida, mas não ter esse tipo de visto não significa que você não possa conseguir algum outro.

De qualquer forma, as possibilidades são muitas. Ficar ilegal não é uma delas, ok? Informe-se sobre vistos disponíveis diretamente com o consulado do país onde pretende morar.

Contratam brasileiros na Europa?

Ué, claro que sim!

O problema é que eles vão dar preferência para brasileiros que tenham dupla cidadania ou que, por outra razão, tenham um visto que permita o trabalho em tempo integral.

Isso fez com que eu perdesse diversas oportunidades quando tinha meu visto de estudante na Irlanda. Demorou alguns meses, mas consegui um trabalho bacana.

Por sorte, precisavam de alguém apenas por alguns meses, o que coincidiu com meu período de férias, quando eu tinha permissão para trabalhar em tempo integral.

Avalie tudo isso antes de pensar que “não querem contratar brasileiros”. E, por favor, aprenda a língua local (será que vou repetir isso em todos os tópicos? talvez!).

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“Eu gostaria de poder, mas eu não quero”

Inclusive, quem trabalha com comunicação ou vendas vai encontrar diversas vagas específicas para falantes de português brasileiro. Olha um exemplo aqui no LinkedIn.

Mas SE LIGA numa questão bem importante: você não vai achar trabalho da noite pro dia. Até pode ser que aconteça, só que é bastante improvável.

Por isso, traga dinheiro suficiente para se sustentar por, pelo menos, 6 meses. O desemprego médio na zona do euro é de 7,5% (Eurostat/2019), mas o índice chega a 14% na Espanha e 9,7% na Itália.

Para calcular quanto trazer e entender o custo de vida em cada cidade, minha dica é usar o site Numbeo.

O salário é suficiente?

A boa notícia é que ter um trabalho legal na maioria dos países da Europa é praticamente garantia de que você terá dinheiro suficiente para pagar suas contas sem perrengue no final do mês.

É muito comum que o salário básico dos países consiga cobrir os gastos básicos de uma pessoa. Em lugares como a França ou a Irlanda o salário mínimo para quem trabalha em turno integral beira os 1.500 euros, o que garante uma qualidade de vida bem razoável.

Apesar disso, também é muito comum que você tenha que deixar de lado algumas comodidades que parecem naturais no Brasil (como ter um carro ou uma casa grande, por exemplo).

E, claro, ninguém vai limpar sua privada, o que me lembra desse texto ótimo que o Gregório Duvivier escreveu há uns 200 ou 5 anos. Não achei o link original, da Folha, então linkei para o Geledés, que republicou o conteúdo.

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E, você, Mari: vive do quê?

Como disse acima, estou há 1 ano na Espanha sem trabalhar “formalmente”.

Isso não quer dizer que eu não trabalhe ou que não pague meus impostos bem cidadã-exemplar. Mas eu continuo trabalhando para o Brasil.

Eu divido meu tempo escrevendo aqui para o Quanto Custa Viajar, para o Hypeness e para meu blog de viagens, o Quase Nômade.

Juntando essas três rendas, sobrevivo com uma graninha em reais que cai todos os meses na conta e tenho chorado no travesseiro a cada alta do euro (sim, meu travesseiro está encharcado, como vocês podem imaginar).

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Agora você, meu amigo ou minha amiga. Você tem duas opções na hora de se mudar pra a Europa.

A primeira delas é seguir o mesmo caminho que eu e continuar levando uma vida dupla: trabalhando no Brasil e morando na Europa. Só que, com a incerteza absurda do mercado, eu recomendo nervos de aço para segurar essa barra que é gostar de fazer câmbio todo mês.

Outra opção é agilizar logo esse seu visto de trabalho e buscar uma vaga no país escolhido para chamar de seu.

Fora essa parte trabalhista/financeira, tem outras questões que são importantes de considerar…

Educação

É comum que os países europeus possuam educação básica gratuita ou a preços muito baixos, subsidiados. Essas escolas costumam ser bastante usadas por quem faz parte da classe média (eu e você!) e geralmente oferecem uma estrutura um pouco melhor do que a encontrada na educação pública brasileira.

Claro, é impossível generalizar, porque a realidade de cada país é diferente. Mesmo assim, isso pode representar uma facilidade para quem se muda com filhos.

Algumas pessoas com quem já conversei aqui na Espanha tinham seus filhos em escolas particulares no Brasil e mudaram para públicas ao chegar aqui, relatando uma economia imensa com essa troca.

Em compensação, a maioria dos países europeus não conta com universidades públicas gratuitas como as nossas. Ou seja: existem universidades públicas, mas elas são pagas.

Um mestrado na Espanha custa em média entre 800 e 7.000 euros ao ano, por exemplo (os mais econômicos ficam na Andaluzia). Na França, o valor é mais barato e há muitos benefícios para estudantes.

Saúde

Vou confessar: eu morro de saudade dos médicos brasileiros.

Aqui na Espanha, o sistema é razoavelmente parecido com o do Brasil. Eu tenho plano de saúde privado, que é obrigatório para o tipo de visto que solicitei, então não posso opinar sobre o sistema público. Apesar disso, já ouvi relatos de que funciona bem, obrigada.

Na Irlanda, os hospitais públicos são pagos, não são baratos e a fila é demorada. Lembro de uma vez ter chegado passando mal na emergência e voltado pra casa ainda pior porque teria que esperar 10 horas para ser atendida.

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Marquei uma consulta privada para o mesmo dia e paguei metade do preço, mas sem a estrutura de um mega hospital.

Na Romênia, onde vivi alguns meses devido a um trabalho, entrei num hospital público e quase invadi os quartos sem encontrar ninguém no caminho.

Nem segurança, nem nada. Em compensação, os hospitais privados do país são tão bons quanto qualquer hospital privado brasileiro e não foi difícil achar um médico que falasse inglês.

Mesmo assim, a gente só percebe que não domina 100% um idioma quando precisa dele numa emergência. Afinal, como é mesmo que explica aquela pontada que a gente tem na perna quando caminha?

Então, meu bem, mesmo que você vá para um lugar com médicos maravilhosos, meu recado é: faça um check-up completo antes de sair do Brasil. Vai no dentista e faz aquela limpeza que você tá devendo pras bactérias. Resolve todos traumas de infância naquele psicólogo que você adiou tudo que pode.

Seu eu da Europa vai agradecer. É sério!

Moradia

Metade da Europa está passando por uma crise de moradia. Em cidades grandes, encontrar apê não vai ser barbadinha.

Pode ser mais complicado antes de você encontrar trabalho e/ou antes do seu visto estar pronto. Lembro de já ter ido em visitas coletivas com umas 15 pessoas ver apartamento em Dublin.

Ao final, pediam que todos os interessados deixássemos nossos contatos e informações sobre trabalho. Era o proprietário/imobiliária quem decidia quem teria o direito de alugar aquele apê. Um amigo que vive em Paris disse que isso é bem comum por lá também.

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A fila de pessoas esperando para alugar o mesmo apê que você.

Aqui em Girona, o aluguel é mais descomplicado, mas sempre pedem documentos que comprovem que você tem dinheiro. De preferência, um contrato de trabalho na Espanha, com contracheques dos últimos três meses. A figura do fiador não existe, então essa é a maneira que encontram para garantir que você vai pagar o aluguel.

Ainda assim, algumas imobiliárias ou proprietários topam alugar para quem não tem trabalho fixo na Espanha. Geralmente, uma maneira de convencê-los é se oferecer para pagar seis meses ou um ano antecipadamente. É uma bolada e, mesmo assim, nem sempre funciona.

De qualquer forma, a maioria das pessoas com quem conversei concorda que é menos burocrático alugar apartamento aqui do que no Brasil. Meu contrato de aluguel foi assinado em menos de 10 dias, por exemplo.

Mas e aí? Vale a pena morar na Europa?

Agora é você quem decide se essa mudança vale a pena ou não.

Eu tentei compartilhar aqui um pouco da minha experiência no Velho Continente. Tem seu lado bom e aquele lado meia boca, como tudo nessa vida.

Ainda sobraram dúvidas sobre se mudar para a Europa? Tudo bem, é só deixar suas perguntas aqui nos comentários! 😉

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