Cadeirante desde os 23 anos em decorrência de uma doença degenerativa que acomete a musculatura do corpo, Suelen Almeida é formada em administração com especialização em inclusão de pessoas com deficiência pelo SENAC.

Influenciadora digital, consultora em inclusão e acessibilidade, palestrante e viajante por natureza, Suelen atua para a inclusão de pessoas com deficiência desde 2014. Nesse sentido, passou a compartilhar dicas de viagens acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida e oferece consultoria para empresas que queiram atender melhor o cliente com deficiência.

A profissional lembra que, com o envelhecimento da população mundial, a acessibilidade se torna uma questão prioritária, pois muitas pessoas passam a ter mobilidade reduzida na terceira idade. “A acessibilidade é boa para todos! Uma mãe com carrinho de bebê, uma mulher usando salto, alguém que quebrou o pé e está com restrição temporária de locomoção“, destaca.

Em breve, ela vai iniciar uma road trip acessível para algumas regiões do Brasil para incentivar este tipo de turismo no país. Antes disso, Suelen topou conversar conosco sobre suas experiências como turista e cadeirante.

Essa é mais uma entrevista da série “O mundo é delas“, em que nos propomos a compartilhar histórias de mulheres incríveis que estão redefinindo o conceito de viagens de um jeito muito especial.

Aproveita para conferir também as outras entrevistas do projeto:

Turismo acessível, com Suelen Almeida

Quanto Custa Viajar – Em primeiro lugar, queria que você contasse como foi que começou a viajar. Você já era cadeirante nessa época?

Suelen Almeida – Comecei quando já era cadeirante, sim. Eu tirei a minha CNH em 2009 (final de). Na minha casa ninguém dirige, além do meu pai. Porém meu pai não mora conosco. Ele mora na Bahia e eu, minha mãe e irmã moramos em SP. Minha primeira viagem de carro foi pouco tempo depois que comprei meu primeiro carro. Fomos até a Bahia. Eu fui revezando a direção com um primo. E me apaixonei pela sensação de liberdade na viagem. Essa primeira viagem de carro foi em 2011.

Em 2012, resolvi me aventurar com duas amigas. Digo isso porque eu preciso de ajuda para tomar banho e me vestir. Eu tinha vários medos e pensava que não queria “incomodar” ninguém com essas minhas dificuldades. Mas mesmo assim fui com essas amigas para Buenos Aires. Ficamos 5 dias lá. E foi maravilhoso!

Nessa viagem fomos com um pacote. Fiquei apreensiva com as questões de acessibilidade, principalmente no hotel. Mas a empresa reservou a hospedagem certinho, o quarto do hotel era acessível. Ali eu percebi que sim, dá para pessoas com deficiência viajarem e sim, a gente precisa se permitir.

QCV – Já que você mencionou essa questão, queria aproveitar para perguntar quais você considera as principais dificuldades vividas por pessoas com deficiência na hora de planejar uma viagem?

Suelen – Uma das maiores queixas dos meus seguidores é com relação à falta de informações sobre a acessibilidade, tanto da hospedagem quanto do destino (pontos turísticos, acessibilidade na cidade ou país, transporte, etc). Na hospedagem temos outro problema: às vezes, os responsáveis informam que tem acessibilidade e quando a pessoa com deficiência chega ao local não tem realmente essa acessibilidade. Isso já aconteceu comigo, inclusive.

Hoje peço fotos de todos os ambientes. Lembrando que acessibilidade não é “apenas” ter uma rampa ou um banheiro mais espaçoso. É necessário ter muito mais do que isso . Outro ponto é a questão do atendimento. Parte do meu trabalho é reforçar junto às empresas do ramo sobre a importância de se preparar para atender com excelência essa clientela, que é negligenciada ainda como potencial consumidor.

No Brasil, mais de 400.000 pessoas com deficiência estão incluídas no mercado de trabalho. Ou seja: tem condições de consumir e querem consumir. Mas para isso é necessário essa conscientização e preparação.

QCV – E como você acha que os estabelecimentos e destinos podem se preparar para acolher melhor este público?

Suelen – Seguindo o exemplo do que funciona para a inclusão em outros ramos e ouvindo o consumidor. Para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho existe um trabalho de consultoria, que considera não apenas a contratação da pessoa com deficiência, mas outras etapas também fundamentais, como a conscientização das pessoas sem deficiência (a fim de facilitar proximidade e convivência e construindo com a pessoa com deficiência) .

Eu comecei a oferecer esse tipo de trabalho, que eu já faço como consultora em outros ramos, por perceber essa dificuldade. Afinal estou dentro desse grupo como cadeirante. Hoje, além do trabalho de consultoria, atuo como influenciadora digital com a questão de experiência do cliente, para evidenciar a importância de se fazer com a gente. Tem uma frase que diz: nada sobre nós (pessoas com deficiência) sem nós. Acho que ela resume e traduz muita coisa.

QCV – Certamente. E em relação ao Brasil, como você percebe a acessibilidade no turismo no país? Acha que houve uma evolução nesse sentido desde que começou a viajar ou ainda há um longo caminho a ser trilhado?

Suelen – Percebo que está tendo um despertar para a questão, mas ainda há muito o que se fazer (infelizmente). Principalmente no quesito de as empresas privadas nos perceberem/reconhecerem como clientes. Vou te dar um exemplo: esse ano, antes das minhas férias de junho, fiz uma pesquisa em empresas locadoras de carro. Pretendia ir ao Recife e queria locar um veículo adaptado. A adaptação que uso é uma das mais comuns, uma alavanca de acelerar e frear o carro. Essa adaptação não impede outra pessoa sem deficiência de dirigir o carro. Não encontrei nenhuma opção!

Tive negativas de todas as locadoras com as quais pesquisei (grandes no mercado). Esse tipo de negligência nos limita e fere nosso direito de ir e vir como as demais pessoas. A empresa perde um consumidor (e outros vários, porque quando somos bem atendidos recomendamos o serviço para outras pessoas) e também deixa de fazer seu papel social.

Não digo social no sentido assistencialista. Não queremos (a maioria de nós) assistencialismo. Queremos poder exercer nosso direito de consumidores.

QCV – E você se lembra de algumas experiências e iniciativas positivas em termos de inclusão no turismo? Se sim, pode contar sobre algumas delas pra gente?

Suelen – Tem uma que me marcou muito positivamente. Reservei uma pousada no litoral sul de SP para ir a um evento de praia acessível. Ao chegar na pousada, eles tinham uma cadeira anfibia disponível para os hóspedes com mobilidade reduzida. Isso me marcou muito.

Compartilhei com meus seguidores e teve uma repercussão extremamente positiva. Isso foi em 2017. Foi quando, inclusive, resolvi me dedicar mais ao tema da inclusão no turismo.

Outra que conheci esse ano é de uma moça que veio do Canadá e adaptou uma piscina natural no empreendimento dela, bem como o banheiro da sauna. Lá ela atua com vivência em língua inglesa.

O local ainda não está 100% acessível, mas ela é muito preocupada com acessibilidade e tem lutado para conseguir outras liberações para adaptar o empreendimento. Inclusive, ela pretende adaptar trilhas. Ela fica no município de Resende, no Rio de Janeiro. Se chama Maple Leaf.

Fui a convite da proprietária em abril desse ano (experiência do cliente). Lá pude dar várias dicas para ela, com base no meu conhecimento como consultora em inclusão e também como cliente com deficiência.

https://www.instagram.com/p/BwAnVCBgrIH/

QCV – Que legal. Agora, para finalizar, queria que você compartilhasse algumas dicas para outras pessoas cadeirantes que sonham em viajar, mas ainda tem receio. Qual a melhor maneira de começar?

Suelen – O que eu sugiro em linhas gerais é, em primeiro lugar, fazer uma lista com locais que deseja conhecer, baseado em qual tipo de destino que ela gosta (isso vale para todo tipo de turista, na verdade, rs). Hoje em dia temos de tudo um pouco (adaptado). Turismo de aventura (montanhismo para cadeirante, salto de paraquedas, mergulho, trilhas), turismo histórico (até no Coliseu tem acessibilidade), etc.

A questão é: não adianta a pessoa ir saltar de paraquedas adaptado se ela não curte aventura. Eu mesma não curto muito. Prefiro turismo histórico, cultural, parques… então, esse é o ponto.

Em segundo lugar, investigar a fundo as informações sobre acessibilidade do destino . Tem lá que o local (hospedagem, transporte, ponto turístico) é acessível? Não se contente com isso… Peça fotos dos ambientes, pergunte a largura das portas e corredores, se tem piso tátil direcional e de alerta (para os deficientes visuais) e assim por diante. Cada pessoa, dentro das suas necessidades, deve questionar o que realmente tem e pedir fotos e detalhamento. Falo isso por experiência.

Depois, compartilhar com quem vai receber essa pessoa com deficiência sobre suas necessidades. Assim a pessoa terá mais condições de recebê-la melhor.

Medo do desconhecido todo mundo tem. Por isso, mesmo com medo, eu digo para viajarem (tomando as precauções anteriores.). Perrengues poderão ocorrer, mas tente levar numa boa e se permita ser instrumento de mudança também. Não dá para esperar que o mundo mude, se não estivermos dispostos também a contribuir para isso.

Nem todo lugar turístico é 100% acessível. Mesmo assim, eu incentivo minha audiência a ir a esses lugares. Nos aventurarmos faz parte do processo. E assim ele se torna mais natural. O projeto #viajecomacessibilidade nasceu dessa necessidade, para fazer a ponte entre as empresas e os turistas com deficiência ou mobilidade reduzida e vice-versa. Eu acredito muito no poder das interações. Não adianta ficar cobrando soluções apenas. Vamos fazer parte da solução. É trocando que recebemos de volta. E no final, todo mundo ganha.

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