Malas arrumadas, check. Celular carregado, check. Passagens e documentos à mão, check. Tudo pronto pra viagem? SIM! Mas espera aí, e a criança?

Esse é o questionamento que eu enfrento toda vez que decido viajar sem a minha filha. E olha que até agora foram poucas as viagens que fiz sozinha, mas antes de falar sobre o fim, que tal rebobinarmos até o começo dessa história?

A minha vida de “viajante” realmente começou após o nascimento da Clara, antes eu era tomada por muitas vontades e desejos, mas não tinha coragem de realizá-los por acreditar que a realização dos meus sonhos não dependia só de mim. Nesse processo de transição de uma adolescente completamente dependente para mãe solo, eu evoluí muito como pessoa, e essa evolução me mostrou que eu poderia ir muito além do que eu imaginava e que a maior vilã na realização dos meus sonhos era somente eu.

Com a responsabilidade de cuidar, educar e amar um ser indefeso e totalmente dependente de mim, eu comecei a criar mecanismos que me transformaram em uma mãe imbatível. Sendo mãe solo, era eu e minha pequena contra o mundo. E como eu sempre fui muito agitada, saindo o tempo todo, sempre em movimento, eu entendi que ou nós nos adaptaríamos a um novo estilo de vida que beneficiasse as duas – que seria igualmente agitado, porém com maior qualidade nos eventos e passeios – ou em algum momento eu surtaria por passar tanto tempo em casa me dedicando única e exclusivamente à lenços umedecidos e fraldas descartáveis.

Para quem não sabe, a saúde mental da mulher e da gestante é uma das áreas básicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e apesar de ser algo tão importante para a Organização, poucos serviços são oferecidos à população. Pesquisas apontam que 40% das gestantes sofrem de algum transtorno psiquiátrico o que afeta negativamente o desenvolvimento das crianças e das práticas maternas, por isso a grande necessidade de promover a saúde mental das mães.

Mas como gerar engajamento a essa causa se quase nunca falamos sobre ela?

As mulheres são socializadas de forma muito opressora, a maternidade compulsória nos é empurrada goela abaixo e somos condicionadas a acreditar que a nossa única razão de viver é o amor incondicional que direcionamos aos nossos filhos, sem eles perdemos todo o sentido da vida. Mas será mesmo que nossos filhos são a única motivação que nos mantém vivos todos os dias?

Eu concordo com o fato de que coloco minha filha no primeiro lugar SEMPRE na minha lista de prioridades, mas ao longo do tempo eu aprendi a duras penas que ela não deve ser a única. Quando nos tornamos mães, ficamos tão engajadas com o “mundo maternidade” que esquecemos de viver uma vida plena, sendo profissionais, estudantes, companheiras, MULHERES. Nós mergulhamos de cabeça nesse mar profundo que às vezes não percebemos que chegamos tão fundo que quase não conseguimos ver a luz novamente.

O processo de “desmame” vai muito além do que só tirar a amamentação da criança. O desmame não é só para a criança como muitos gostam de pensar, eu gosto de chamar carinhosamente de “desplugar” – que de acordo com o Dicionário Priberam, significa “tirar da tomada” e de forma bem literal é exatamente isso, se desconectar por um tempo pré-determinado.

Falando desse jeito parece bem cruel, mas cruel de verdade é a culpa que sentimos estando longe ou perto das nossas crianças, essa culpa, essa vergonha de não ser suficientemente boa nos acompanha diariamente como uma sombra. E a única coisa que podemos fazer com essa culpa, é aprender a lidar com ela.

Eu passo 125% do meu dia preocupada com a Clara, sério… Certa vez passei o dia me martirizando por que havia mandado-a para a creche com roupa de calor e depois percebi que estava esfriando. Das preocupações mais banais até as mais relevantes, o fato é que a nossa mente nunca se desconecta da nossa “razão de viver”, ou seja, das nossas crias, mas precisamos aprender que mães e filhos não são um único ser, muito pelo contrário. São seres únicos, cada um com seus próprios desejos e vontades, com suas convicções, suas personalidades. São seres que se amam de forma incondicional, mas que na maioria das vezes a semelhança termina na cor dos olhos ou do cabelo.

A primeira vez que decidi viajar sem a Clara demorei 4 meses para ter certeza de que era isso mesmo que eu queria, tive que preparar tudo com muita antecedência… Com quem ela ficaria, por quanto tempo, quais as recomendações, relutei muito em ir, mas foi muito importante eu passar um final de semana longe dela. O primeiro assim tão longe para entender que ela pode sobreviver alguns dias sem mim e que principalmente eu tenho uma vida que vai além de trocar fraldas e comprar biscoito de maisena.

A primeira vez que fui tão longe sem ela foi tão assustador quanto libertador. Fui a trabalho, mas eu consegui tomar banho com calma, sem me preocupar em dividir o chuveiro do hostel com ela – sendo que ela só toma banho gelado e eu não – eu pude comer qualquer porcaria e economizar uma grana por não ter que me preocupar em comer algo saudável por conta dela. Fiz novos amigos sem a preocupação de ter que dormir cedo por que eu sabia que às 7h ela estaria de pé com a corda toda, mesmo que tivéssemos passado o dia na rua e ela estivesse muito cansada. E eu dormi tranquilamente. No dia eu me senti muito culpada por estar…feliz! Como eu conseguia estar tão feliz se ela não estava ali? E então eu entendi que eu posso ser outras coisas além de ser mãe.

Por isso, quando me perguntam: “Mãe pode viajar sem a cria?” Eu grito aos quatro cantos: “- SIM, SIM, SIM!!! MIL VEZES SIM”. Nós não só podemos, como devemos ser outras coisas além de sermos mães. Nós devemos ser médicas, engenheiras, professoras, psicólogas, VIAJANTES, filhas, amigas, amantes, mulheres! Nós devemos ser o que quisermos!

E SE VOCÊ ESTÁ NESSE DIFÍCIL PROCESSO DE TRANSIÇÃO, NÃO SE ACANHE! SE PERMITA SER O QUE QUISER! E DESCOBRIRÁ MARAVILHAS SOBRE VOCÊ!

Para ver posts sobre minhas viagens com a Clara, confira esse link!

Texto e fotos por Camila Santos

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