Simpatias, rituais e criaturas do além fazem parte das tradições de diversos países. Dentro da cultura nórdica, temos os elfos na Islândia, que fazem parte do cotidiano e até influenciam os rumos de novas construções. Os Huldufolks, também chamados de povo oculto, vão muito além dos que os olhos conseguem enxergar.

Segundo uma reportagem do New York Times, muitas pessoas acreditam em duendes e elfos na Islândia pelo simples fato de já terem visto ou “sentido” suas presenças. Os relatos dizem que os elfos não falam, se assemelham com a aparência humana, sendo mais baixos e portanto confundidos com duendes, e são protetores vorazes de suas casas em pedras. Algo como os hobbits, personagens criados pelo escritor J. R. R. Tolkien, eternizados na cultura pop.

Fato é que faz parte da cultura local alimentar a crença de criaturas míticas. A cantora islandesa Björk disse ao mesmo jornal um ponto interessante a ser considerado: “Nós achamos que a natureza é muito mais forte do que o homem. O relacionamento com coisas espirituais não desapareceu.

Assim como acontece no Brasil, o folclore faz parte do convívio social e da fé individual, com pesquisas apontando que um a cada dois islandeses acreditam nos elfos. A presença de forças ocultas é admirada e respeitada pela população. 

Fenômenos naturais, premonição por meio de sonhos e o poder dos espíritos também estão enraizados nas tradições celtas.

Será que tem elfos morando nessa pedra? Foto: Njaj

Obras alteradas pelos elfos na Islândia

É assim que construções chegam a ser interrompidas na terra do gelo e do fogo. Um comitê de planejamento analisa solicitações dos moradores para que os elfos não sejam incomodados.

Geralmente é consultada uma pessoa mística, que tenha visões ou contato com elfos, crie um “canal de comunicação” para que deem aval ao projeto. É possível pedir que eles se afastem do local também, como numa negociação amigável.  

Nos anos 1970, uma parte da estrada Elfhill Road, em Kopavogur, foi reduzida devido a presença de uma grande rocha, batizada de Álfhóll, que não deveria ser destruída, afinal, era o habitat de elfos. Os rumores apontavam que mexer em tais ‘energias’ poderia causar até mesmo acidentes. 

Acontece que a rocha foi sim retirada e reposicionada. Algumas mídias reportaram acidentes sem explicação plausível na época, e trabalhadores aproveitaram para justificá-los com a mudança de lugar da pedra, dando mais fôlego para as histórias de perpetuarem. Atualmente a rocha é um patrimônio público, mantida como sítio arqueológico, porém foi transferida para outro local, não muito distante de sua origem.

Foto de Tomáš Malík no Pexels

Outro caso que ficou conhecido nos anos 1990 foi o das escavadeiras que, ao tentar derrubar uma colina para erguer um cemitério, falhavam inexplicavelmente e repetidamente. O mesmo teria acontecido com câmeras de TV que tentaram filmar o episódio sobrenatural. Vitória dos elfos: a construção foi interrompida.

Mas não por muito tempo. O dono do terreno alegou que não queria se responsabilizar por mover a rocha do lugar, então chamaram uma mulher que se dizia médium para se comunicar com eles. Sem a presença de elfos no local, a pedra foi cuidadosamente transferida para perto de outras e não houve mais problemas por ali. 

Tais fatos estão presentes em um longo comunicado público elaborado por Viktor Arnar Ingolfsson, antigo chefe na Administração Rodoviária da Islândia. O documento pontua que o órgão público resguarda as crenças pessoais de cada um e que nos 12 mil quilômetros de rodovias ao redor do país há opiniões divergentes em relação às construções.

Apesar de haver a tentativa de entrar em acordo sobre a melhor maneira de proceder, atitudes precisam ser tomadas ainda que haja antagonismos sobre o posicionamento de estradas, cruzamentos de pontes ou minas de cascalho.

Valorizamos a herança de nossos ancestrais e se a tradição oral passada de uma geração para outra nos diz que um determinado local é amaldiçoado ou que seres sobrenaturais habitam uma certa rocha, isso deve ser considerado um tesouro cultural. Nos dias em que a luta com as forças da natureza era mais dura do que é agora, a conservação veio à tona neste folclore, e copas e belas características naturais foram poupadas”, afirma Viktor, que também deu entrevista sobre tais questões para o The Atlantic

Foto de Rudolf Kirchner no Pexels

Em casos mais recentes, houve até ação judicial movida a favor dos elfos. Em 2013 foi suspensa a construção de uma nova rodovia que passaria por uma “terra encantada” em um campo de lava. Preservando a vida selvagem e mística, a intervenção foi cancelada. 

Nos dias atuais a situação não mudou muito. Alguns projetos ainda precisam de autorização para seguirem em frente, especialmente pelas áreas de seres invisíveis serem consideradas sítios arqueológicos.

Elfos seriam como guardiões da natureza – Foto de Rudolf Kirchner no Pexels

Ver para crer

O assunto é sério, sendo abordado em artigos, jornais e teses acadêmicas do país. Existe uma coleção de casos parecidos sobre o poder que elfos exercem na sociedade e nos territórios onde habitam. Com base em ancestralidade, dizem que tais crenças se desenvolveram direta ou indiretamente no cotidiano dos islandeses há 12 séculos.

Enquanto a ciência não comprova ou ignora a existência de espíritos da natureza, alguns pesquisadores se ocupam de agrupar informações ocultas que sustentem os argumentos e testemunhos ouvidas há décadas.

O antropólogo e historiador Magnus Skarphedinsson passa 40 anos de sua vida coletando mais de 400 relatos em relação às visões e até conversas com os elfos. Ele está tão convencido da existência deles, que oferece cursos sobre o assunto na Escola dos Elfos, fundada há 33 anos em Reykjavík, capital do país.

Sem seguir uma base acadêmica rigorosa, os ensinamentos trazem uma visão crítica e histórica do folclore local, incluindo outros seres invisíveis no currículo: gnomos, fadas, trolls e demais espíritos da natureza. Em quatro horas são abordados temas envolvendo aparência, moradia, costumes e ideias das criaturas fenomenais tanto da Islândia quanto de outros países.  

As aulas acontecem com dois professores e direito a coffee break caprichado, com pão, panquecas e outras delícias. O valor é de pelas aulas é de € 56, com material de apoio e refeição inclusos. Os passeios externos, que duram 30 minutos em áreas próximas à escola, custam €19 por pessoa.

54% da população da Islândia acredita em elfos

Foto: divulgação

A cidade de Hafnarfjörður, a 10 minutos da capital, é uma das principais em termos de turismo elfo, oferecendo tours específicos que abordam o tema, passando por locais onde as criaturas supostamente habitam. Os pontos de interesse incluem o Parque de Lava Hellisgerði, os Penhascos Hamarinn, o Penhasco Setbergshamar e os arredores da piscina de Sundhöll Hafnarfjardar. 

A Hidden Worlds Walks realiza passeios de até duas horas de duração nos meses de Verão. Durante a caminhada, a guia Sigurbjörg Karlsdóttir reconta histórias sobre os mágicos mundos ocultos e como se relacionam com o desenvolvimento da cidade.

A clarividente local Erla Stefánsdóttir preparou um mapa do mundo oculto, que lhe foi revelado pelos seres invisíveis e está incluso no valor de €28 por pessoa.

Parque Hellisgerði – Foto: divulgação

Outros atrativos de Hafnarfjörður são o Jardim Elfo no Parque Hellisgerði, que conta até com o café dos elfos, onde são servidas bebidas do mundo oculto. É lá que acontece o Viking Festival, celebrado anualmente na segunda quinzena do mês de junho. 

A cultura viking ganha ainda mais força na vila de Fjörukráin, que é simplesmente uma das atrações mais visitadas do país. Com decoração medieval, o local temático conta com hotel e restaurante, que serve grandes banquetes com opções de comida nórdica. 

Foto: divulgação

Na pequena comuna de Stokkseyri, que não conta nem com 500 habitantes, existe o Museu das Maravilhas Islandesas, traz informação sobre fantasmas e elfos, além de promover a aurora boreal, fenômeno celeste encantador, responsável por parte do turismo. É um espaço interativo para reunir “histórias que nasceram da conexão dos islandeses com a natureza e o lugar que chamam de lar.”

Museu recria habitat de elfos na Islândia – Foto: divulgação

Já o Þuríðarbúð, ou Museu Folk, se dedica ao folclore e costumes da Islândia, se baseando especialmente em antigos processos de trabalho. Lá se encontram casas de 1765, que ao longo do tempo se transformaram em centros de arte e cultura europeia, incluindo moda, música e literatura. Hoje funcionam como espaços expositivos, resgatando a história e os modos de vida da época.

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Foto: divulgação

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