Já imaginou um lugar criado para tanto para resistir ao apocalipse quanto para atrair extraterrestres? Localizada a pouco mais de 100 km de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a curiosa vila de Zigurats foi construída por terra planistas para resistir a supostos ataques e durar mais de 1.000 anos.

Parece brincadeira, mas não é. O condomínio no meio do cerrado ocupa a Fazenda Portal, uma grande área rural de Corguinho, onde há cerca de 30 residentes fixos, dispostos a aderirem ao estilo de vida peculiar que o líder do povoado propõe, e outros 40 que apenas passam uma temporada por lá. 

A princípio, o que mais chama a atenção são as construções, todas com telhados abobadados em forma de arco, domo, quadriculado e piramidal, para que sejam “resistentes a abalos sísmicos”. As casas são semelhantes a um iglu, com uma cobertura metálica arredondada. 

Para além da superfície, a comunidade poderia até mesmo se esconder de ataques apocalípticos ou fenômenos naturais, visto que um complexo de nove galerias subterrâneas, sendo duas principais a quatro quilômetros da cidade, seis mais distantes e uma central, é anunciado pelo fundador de Zigurats.

As casas possuem corredores subterrâneos interligados. O subsolo seria como uma espécie de bunker, um abrigo capaz de suportar longos períodos de crise.

Foto: Silas Ismael

Vivendo em harmonia com a natureza, a comunidade também se diz sustentável. A geração de parte da energia é solar. A comida orgânica provém de plantações dos próprios moradores ou é adquirida de vizinhos quilombolas. O que não é aproveitado vai para compostagem ou reciclagem. 

A vila Zigurats tem até mesmo uma própria moeda social, chamada de “bônus dourado”. Em vídeo, afirmam que o dinheiro chega a ser aceito em cidades conveniadas e países vizinhos, sem mencionar quais, é claro. Resta saber se as pessoas puderam pagar suas casas, no valor de R$ 100.000,00, com o ouro local.

As casas “igloo” podem ser alugadas no AirBnb

Foto: divulgação/Zigurats

Terra Plana chamando ET Bilú

O edifício mais imponente em meio à paisagem de Zigurats é o Observatório e Centro Tecnológico de Zigurats (CTZ), um telescópio que dá suporte ao trabalho do suposto grupo de pesquisas, defensores de teorias controversas, que vão desde a aparição de extraterrestres até a de que existe uma estátua (?) na lua

Outra construção chamativa é uma pirâmide de 63 metros de altura, que funcionará como espaço cultural. Dentro contará com salas de cinema e museu, além de salas temáticas ufológicas e um auditório para eventos exclusivos dos pesquisadores.

Segundo consta no site oficial, o CTZ e os arredores foram estrategicamente erguidos entre as coordenadas 19º latitude Sul, “posição geográfica favorece manifestações luminosas que desafiam as leis da física por seus traçados, surgimentos e desaparecimentos instantâneos”, segundo eles, sem base científica comprovada. Também dizem que a localização é “considerada um dos vórtices mais poderosos de energia hoje em dia”.

Nas palavras do próprio fundador, a explicação ainda vai além. Sem qualquer sentido, ele afirma que o Projeto Portal, antigo nome de Zigurats, está em território brasileiro por causa da mistura entre os povos. “A miscigenação da raça brasileira contribui para um despertar espiritual, mental, uma busca muito mais intensa nesse sentido, o que facilita termos uma visão mais ampla de todas as situações.”

Foto: Gustavo Coelho – divulgação/Zigurats
Foto: Silas Ismael

A Associação de Pesquisa Dakila se autodenomina “pioneiro na pesquisa no campo da física, química, astronomia, agronomia, neurociência e medicina”. Nas propagandas, dizem liderar 9 milhões de associados no Brasil, sendo 4.500 apenas em Corguinho, e em todo o mundo. Os números são um tanto confusos, porque não há documentação dos mesmos e existe desencontro de informação até nas páginas oficiais do grupo.

A principal sustentação do grupo é a de que a Terra não é redonda e sim convexa. Tal teoria, desmentida centenas de vezes pela ciência, voltou a dar alguma fama ao local nos últimos tempos. Imagens divulgadas pelo próprio Dákila Pesquisas mostram que a lua não é plana…mas ainda creem que a Terra seja.

Para os terraplanistas, o planeta seria como um grande ovo frito no meio do universo em seu formato – Foto: divulgação/Zigurats

Permeada por muito misticismo, a vila ficou famosa nos anos quando uma matéria do programa Domingo Espetacular, da TV Record, exibiu no dia 10 de outubro de 2010 imagens de um morador bem inusitado: o ET Bilú, usado para propagar a ideia de Terra plana. 

No caso, a equipe de televisão dedicou 21 minutos ao assunto, mostrando o personagem literalmente no meio do mato durante a noite. Nota-se, na “reportagem”, que a criatura de outro planeta fala até português e deu um conselho aos telespectadores, alarmando à todos para “buscarem conhecimento”.

O vídeo não tardou em viralizar e Bilú virou meme. Foi um grande fenômeno! No caso, midiático mesmo. O extinto programa Custe O Que Custar, da Redetv, chegou a ir até a vila para desmascarar o ET.

Nada, nem ninguém explica ao certo ou comprova qualquer tipo de afirmação feita por Urandir, com exceção de seus fãs e seguidores. Pouco se sabe sobre o que ele fazia antes da fama, mas o próprio chegou a dizer que trabalhava na construção civil. Nem mesmo o site oficial do personagem conta sua trajetória ou revela seu currículo. Talvez Bilú guarde esse segredo a sete chaves.

Lan house e escritório em Zigurats – Foto: divulgação/Zigurats

O Conde Dakila

Toda a loucura coletiva de Zigurats não existiria sem o fundador e morador Urandir Fernandes de Oliveira, nascido em Marabá Paulista (SP). Não se sabe porquê migrou para o Mato Grosso do Sul, mas foi na comunidade de Boa Sorte, vizinha de Corguinho, que ele começou sua carreira de influenciar pessoas com a fundação de seu chamado Projeto Portal, no final dos anos 1990.

A partir da empreitada que já visava o estudo de óvnis, objetos voadores não identificados, Urandir passou a usar a mão de obra dos moradores de Boa Sorte, que na época contavam com poucos recursos. Na época, ele também dava palestras pagas sobre “manipulação de energia e controle da mente” para a população.

Com o tempo, passou a atrair centenas de visitantes, investindo na melhoria das estradas de acesso. O desenvolvimento da pequena região acabou tornando o ‘ufólogo’ um benfeitor por parte das pessoas que ali viviam. Dessa maneira, Urandir seria como o guru de algum tipo de terra prometida, que hoje se chama Zigurats.

Foto: Fernanda Lima – divulgação/Zigurats

O suposto ufólogo “paranormal” sempre afirmou que tinha contato com seres extraterrestres e obteve dons curativos a partir de então. “Uma luz violeta me sugou para cima e duas pessoas colocaram um microchip no meu pescoço“, contou Urandir para a imprensa sobre quando foi abduzido. A partir de então se tornaria um missionário com objetivo de preparar a humanidade para a “quarta dimensão” da Terra.

Mais recentemente, passou a se designar como pesquisador em Ciência Lilarial, termo inventado para constatar “tudo aquilo que a ciência não explica.”

Embora a própria ciência abra precedentes para dúvidas e exista quem tenha inteligência suficiente para grandes teorias sem necessariamente ter um diploma em mãos, é preciso entender que teoria sem algum tipo de comprovação clara não passa de idealização ou fábula.

Como quase todo mentor profissional, Urandir seguiu propagando inverdades, como de que havia uma legião de 76 mil pessoas seguindo seus passos, entre outras tantas que veremos a seguir. 

Foto: divulgação/Zigurats

Figura controversa, Urandir coleciona não apenas alguns adeptos de suas ideias na vila de Zigurats, como também desafetos ao longo da vida. Isso porque desde que se tornou uma pessoa conhecida esteve rodeado de polêmicas. 

Lá nos anos 2.000, chegou a ser denunciado na mídia. Uma matéria da revista IstoÉ reúne uma ex-namorada e um ufólogo fazendo duras críticas às suas atitudes. “Urandir é, na verdade, um caso de polícia. Engana as pessoas à custa de truques grosseiros, como espalhar seus homens pelo mato, à noite, com faróis de milha. Quando ele supostamente chama os discos voadores, os focos de luz aparecem e as pessoas ficam embasbacadas”, relata Ademar José Gevaerd, editor da Revista UFO, à reportagem. 

No mesmo ano foi indiciado e preso por estelionato e falsidade ideológica, sob acusação de vender ilegalmente terrenos em Corguinho, além de curandeirismo e charlatanismo.

No podcast A Terra é Redonda, divulgado em 2020, Gevaerd afirma que o nome de seu gato, Bilú, foi apropriado por Urandir quando lançou o extraterrestre na mídia

Muitos outros profissionais do meio acadêmico e científico endossam as críticas à Urandir, como é o caso de Ricardo Molina, perito criminal e professor da Unicamp, que explica as fraudes: 

Fato é que, apesar de não ter provas e nem respaldo científico de nada que lhe aconteça, Urandir também foi usado pela imprensa pautada em sensacionalismo, tornando-se um personagem que despertava curiosidade e captava audiência. As fake news e as teorias da conspiração não chegaram onde estão por acaso. 

Em sua página de Facebook, o fundador de Zigurats segue compartilhando inúmeros conteúdos, em vídeo e texto, sem nenhum tipo de prova ou o mínimo de profissionalismo. As informações são apenas jogadas ao vento. Uma delas é a de que estava viajando o Brasil e o mundo com 100 pesquisadores para realizar a Expedição Zigurats, de estudos sobre civilizações capazes de “mudar o rumo da história da humanidade”. 

Ao longo de 20 anos Urandir foi esperto o suficiente para expandir seus horizontes, mantendo não apenas a vila, mas investindo em bitcoins, oito jazidas de argila vermelha para exportação e para lançar uma marca de cosméticos com base no mineral, que comprovadamente faz bem à pele.

O “império” do pai do ET Bilú inclui ainda seus próprios canais midiáticos, a TVCH, o Dákila TV e o site Impacto+, os únicos meios de comunicação que noticiam, e de forma positiva, os assuntos dos grupos de Urandir.

Foto: divulgação/Dakila Pesquisas

As propagandas, porém, vão literalmente para o espaço em termos de imaginação, chegando a afirmar que a Dakila Pesquisas já desenvolveu uma fórmula capaz de prevenir e combater mais de 300 doenças, inclusive o câncer. Os produtos do tal laboratório nunca chegaram ao mercado ou avançaram em termos de pesquisa.

O envolvimento de Urandir com políticos no Mato Grosso do Sul permitiu que ele fosse homenageado pelas pesquisas sobre a Terra Plana na Assembleia Legislativa de Campo Grande. A ocasião foi tão controversa, que os deputados chegaram a afirmar que não conheciam sobre ufologia, não sabiam da existência de Bilú e nunca nem foram a Zigurats. Mais uma vez, o ufólogo Gevaerd, seu principal inimigo, veio à público mostrar a vergonha e constrangimento que tais homenagens são para a ciência.

Em meados de 2016, emitiu um comunicado informando que não daria mais entrevistas porque sua associação era tratada sem seriedade e de forma tendenciosa. 

Foto: Gustavo Coelho – divulgação/Zigurats

Depois de viajar na Terra Plana, concluo que frases desconexas e opiniões rasas compõem os vídeos de Urandir. No canal do Youtube ele fala sobre tudo, desde crises mundiais até coronavírus, e também não esconde seu posicionamento político a favor de Jair Bolsonaro, atraindo assim os fiéis eleitores do presidente da República. 

Urandir segue em busca por relevância. No Facebook, tem ao menos três páginas sobre ele, provavelmente criadas pelo próprio, nas quais ainda usa a figura do ET Bilú para fazer supostas “revelações” aos terráqueos, reforçando que a terra é plana, além de propagar informações de cunho duvidoso e notícias falsas.

Entre elas, Urandir afirma que a Floresta Amazônica não queima, mesmo quando é visível a vegetação ardendo em chamas e o crescente desmatamento. 

Ao tentar explicar tal fenômeno amazônico, o “Conde Dakila”, como resolvi chamá-lo, novamente não apresenta nenhum tipo de respaldo científico ou confirmação de alguma instituição renomada. É apenas mais do mesmo: um monólogo confuso e disperso, como tudo que permeia seu universo tão particular. 

Foto: Silas Ismael

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