Mulher, jovem, viajante solo e negra, Cecília Rosário tem na ponta da língua a resposta para quem questiona suas andanças pelo mundo: “o lugar do preto é onde ele quiser“. Ela faz deste o seu lema de vida, tendo desbravado 17 estados brasileiros e mais uma dezena de países pelo mundo.

Essa carioca de 25 anos é formada em Química, pós-graduada e hoje cursa uma segunda graduação em Defesa e Gestão Estratégica Internacional na UFRJ. Trabalhando durante o dia e estudando à noite, ela encontra tempo para estudar francês aos sábados em busca do sonho de se tornar poliglota. Nesse turbilhão de atividades, aproveita finais de semanas e feriados para explorar o mundo e compartilhar suas andanças através do Instagram, onde é conhecida pelo @ciarosatravel.

O nome parece estranho? Ela explica: “Ciarosa surgiu porque eu tentei criar um e-mail que usasse os meus dois apelidos, que eram ‘ciça’ e ‘rosa’, porém alguém já tinha tido essa ideia e acabou entrando com o ‘ç’ comido“, brinca.

Cecília é a nova entrevistada da série “O mundo é delas“, em que nos propomos a contar histórias de mulheres incríveis que estão redefinindo o conceito de viagens de um jeito muito especial.

Os desafios de ser uma viajante negra, com Cecília Rosário

Equipe Quanto Custa Viajar – Quando e como foi que você começou a viajar?

Cecília Rosário Quando eu confesso que é uma pergunta difícil. Depois de completar 18 anos, já fazia pequenas viagens com amigos pelo Rio e até mesmo São Paulo. Mesmo assim, acredito que o que marcou “meu início” nessa vida, foi minha primeira viagem para fora do país em 2016, quando conheci um pouco da Argentina e do Uruguai. Na época, eu tinha pouco mais de um ano trabalhando e juntando dinheiro. Meu objetivo com o trabalho sempre foi conseguir dinheiro para conhecer o mundo.

QCV – Recentemente, você escreveu uma publicação no Instagram falando sobre os desafios de ser uma viajante negra (veja aqui). Como você percebe essa questão? 

Cecília – Pra alguns podem ser apenas detalhes, mas pra quem vivencia na pele, chega a ser gritante. Na minha primeira viagem, já pude perceber os olhares nas ruas e ouvir diversas cantadas até mesmo em vias extremamente movimentadas. Concordo que algumas questões envolvem mulheres brasileiras no geral, porém com as negras é diferente. Infelizmente o preconceito ainda é forte, não só no Brasil, mas também lá fora.

Não consigo contar quantas vezes fizeram comentários absurdos em relação à minha pele, ao meu cabelo, ao meu corpo e às minhas características físicas. Já ouvi muitas vezes que “meu nariz nem é tão grande” e que “eu sou negra e bonita”.

Sem contar que o tempo todo você é pré-julgado. Quantas caras de surpresa já presenciei ao dizer que falava a língua local ou até mesmo ao dizer que já havia terminado a faculdade e feito uma pós-graduação.

QCV – No texto, você comenta que uma das coisas que faz é pesquisar sobre a história do lugar que irá visitar para tentar prever como as pessoas pensam. Já deixou de fazer alguma viagem por medo do racismo? 

Cecília – Deixar de fazer ainda não, porque estou no começo e o que não faltam são opções. Mas já coloquei pro final da lista países com relatos de racismo.

QCV – Além desta, quais as principais precauções que você costuma tomar quando planeja um roteiro sendo uma mulher, negra e jovem viajando solo?

Cecília – A maioria dos cuidados são inerentes a qualquer mulher viajando sozinha. Como tento economizar nas viagens e também fazer novas amizades, opto por ficar em hostels. Pesquiso muitos relatos de mulheres que já tenham estado nele e procuro quartos femininos ou com um número alto de pessoas.

Acredito que um quarto misto de 4 pessoas possa ter 3 homens e 1 mulher, porém um de 22 é muito difícil que tenha 21 homens e 1 mulher. Outra coisa importante é sempre comunicar que está bem. O meu Instagram me ajuda a compartilhar em tempo real tudo que vou vivendo, então meu sumiço também pode indicar algum problema.

Mas também é necessário atenção, às vezes eu compartilho um pouco depois de sair do local, até pra editar algo, mas evita que alguma pessoa ruim saiba exatamente todos os meus passos.

QCV – Imagino que você já tenha vivido algum constrangimento devido ao preconceito enquanto viajava. Nesse caso, como lidou com a situação? 

Cecília – Na maior parte do tempo, o que constrange é se sentir sozinho num mar de gente. Normalmente são poucas pessoas pretas nos ambientes, quando não sou a única. Tenho sentido isso mudar, mas são pequenos passos.

Já entrei em lojas e não fui atendida, mas também já entrei em lojas e vieram me perguntar se eu queria alguma coisa e recebi uma cara feia ao responder que estava só olhando. Você percebe os olhares te seguindo, te olhando de cima a baixo.

Acredito que algumas pessoas não façam por maldade. Normalmente me pedem pra sambar e, se eu respondo que não sei, dizem ser um absurdo alguém “como eu” não sambar. Normalmente eu tento explicar ou dou apenas aquele sorriso sem graça e deixo pra lá.

Tem coisa que se eu contar é capaz de vocês não acreditarem… já me perguntaram porque eu estava passando protetor solar na praia!

QCV – Entre os locais que visitou, quais aqueles em que se sentiu mais acolhida? E quais os que ainda sonha em visitar?

Cecília – Eu me senti muito bem na Colômbia. As pessoas pareciam felizes o tempo todo e, se não tratam a todos bem, eu tive muita sorte. Eu comecei sonhando em ir a todos os estados do Brasil, mas bati 17 e começou a ficar mais caro que sair da fronteira.

Hoje quero conhecer o mundo todo, mas confesso que sonho muito com os países da Ásia e com qualquer um que eu consiga ver a Aurora Boreal, como a Noruega.

QCV – Para finalizar, gostaria que você compartilhasse algumas dicas para outras mulheres negras que pensam em viajar sozinhas, mas ainda têm medo de como o mundo irá recebê-las!

Cecília – Infelizmente, ainda acho importante ler sobre o lugar, encontrar relatos de outras viajantes e estar sempre atenta, principalmente por ser mulher. Mas ainda mais importante que isso é lembrar que o lugar do preto é onde ele quiser.

Então, não devemos deixar de viver os nossos sonhos e tantas experiências maravilhosas por aí, por medo. Viajar me ajudou a crescer em milhares de aspectos. É uma jornada de autoconhecimento e de conhecimento de mundo ao mesmo tempo. A Cecília que eu sou hoje nunca mais será a mesma de 10 países atrás.

Confira também as outras entrevistas da série “O mundo é delas”

2 comentários

  1. Oi Cecilia
    Parabéns pela coragem e incentivo. Todas as raças deve ter seu lugar ao sol. Avante e siga em frente pois sonhos sai para serem realizados com garra , coerência e respeito as várias adversidades que a vida nos reserva.Parabens.!!!!!

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