Explorar antigas fazendas de café, acompanhar o processo produtivo dos grãos, desfrutar de um jardim sonoro e saudar a memória de Cazuza são apenas alguns dos motivos para visitar o Vale do Café. A região ao ao sul do Rio de Janeiro e colada com a Mata Atlântica é realmente uma joia preservada desde o Brasil Império.

Atraindo turistas do eixo Rio-Minas Gerais e São Paulo, o trecho fluminense carrega até hoje o peso de sua importância histórica no desenvolvimento do país. O nome que lhe foi atribuído tem uma boa justificativa:

No século 19, a região concentrava a maior produção cafeeira nacional, equivalente a cerca de 75% do total.

Josefina Durini, uma das empresárias empenhadas na atual produção de café do Vale

Vale do Café

Os grandes barões de café tinham em suas fazendas toda a riqueza material que o “ouro negro” proporcionou. Os 15 municípios que compõem o Vale do Café abrigam as palacetes rurais que, atualmente, se propõem não apenas à continuar produzindo — inclusive recuperando o cultivo cafeeiro — como também a se destacar no quesito hospitalidade, mimando os turistas e aguçando seus cinco sentidos.

Daqueles longínquos tempos restaram edifícios e inúmeras histórias para contar, inclusive trazendo à tona os importantes personagens negros do período escravocrata, uma dívida histórica que já demora 200 anos para ser quitada.  

Há algo de bucólico e muito de pitoresco entre as curvas do Vale do Café. A seguir você descobre parte dos encantos da região que parece só cenário de novela, mas é real. 

Fazenda Campo Alegre: dedicada apenas a eventos e celebrações

Redescobrir os pés de café

Com a produção voltando, aos poucos, o Vale registrou primeiras safras em 2019, uma verdadeira conquista para a região. A Fazenda Alliança, na Barra do Piraí, é um exemplo em relação ao cultivo de pés de café arábica.

A propriedade de 1861 foi adquirida em 2007 pela argentina arquiteta Josefina Durini, mantendo ainda os antigos terreiros de pedra e retomando a produção de grãos, dessa vez cultivados à sombra, técnica inovadora que resulta em grãos de maior qualidade. O local também cria búfalos, oferecendo aos clientes leite, queijos e linguiça saborosos. 

O Hotel Fazenda St. Robert, em Piraí, é outra opção para conhecer os cafezais regionais. O plantio começou em 2017 e resulta no café especial Aroeira, torrado e comercializado na propriedade. Além disso, também produzem chope e cervejas artesanais na cervejaria, aberta a visitação.

Em Rio das Flores se pode visitar a Fazenda União, datada em 1836, que também resgatou o cultivo de café, já vendendo o produto próprio em sua charmosa loja. O lugar é lindo, conta com capela e museu de arte sacra, além de servir comida no fogão à lenha.

Café União vendido na fazenda do mesmo nome

Conhecer fazendas maravilhosas

Uma coisa é certa: até quem não é do campo se encanta com as fazendas do Vale do Café, dedicadas a visitação guiada, eventos e hospedagem. Erguidas, em sua maioria, no século 19, as propriedades passaram por excelentes trabalhos de restauração, conservação e modernização. Descobrir cada detalhe de época e avistar as paisagens ao redor é realmente um deleite.

A Fazenda Alliança, mencionada no tópico acima, recebe hóspedes que podem desfrutar de confortáveis e muito bem decoradas suítes temáticas; e visitantes para refeições orgânicas agendadas ou passeios. No turismo rural, conta com tours de fusquinha dentro de suas terras, onde podemos conhecer mais sobre a criação dos búfalos e práticas agroecológicas, avistar o Vale lá do alto e participar de experiências gastronômicas interessantes.

Vai encarar? Time de búfalos da Fazenda Alliança
Varanda da Fazenda Alliança

Em Valença, a Fazenda Vista Alegre é referência na criação de cavalos. Funciona como guest house e espaço para eventos, acolhendo visitantes que podem se encantar com os belos jardins que foram cenário para o clipe de 10 anos do clássico infantil “Lua de Cristal” e da novela “A Viagem”.

Com ambientes impecáveis que resgatam o mobiliário de época, a Fazenda União atua como hotel fazenda de alto padrão e espaço para eventos. A visitação guiada é na companhia da personagem Dona Luisinha, que conta os causos ali vividos e mostra item por item da enorme coleção, incluindo peças da família real portuguesa. Vale a pena conhecer a ornamentada capela, restaurada pelo talentoso artista Jerônimo Magalhães. 

Sala do casarão da Fazenda União
Capela da Fazenda União

Para quem está em família, o ideal é a Fazenda Ribeirão, que possui lazer completo com recreação programada. A estrutura conta com piscina, atividades náuticas no lago, praia fluvial, tirolesa, fazendinha de contato com animais, entre outros. Os adultos podem conhecer a produção de cachaça e cerveja artesanal local. 

Acompanhar a produção de cachaça

Indo além do DNA cafeeiro, o Vale do Café também tem alambiques abertos à visitação. A Cachaçaria Werneck, em Rio das Flores, pertence a uma família que está na região a pelo menos cinco gerações.

Na charmosa propriedade onde planta cana de açúcar, Seu Eli começou a produção de cachaça, ainda que informalmente, em 2009. Depois ampliou o local para que conseguisse obter 750 litros por dia de garapa, destinadas à dois tipos de aguardente, a branca e a dourada. O resultado diário é de 120 litros do destilado, distribuída em grande parte dentro do país. 

O visita guiada vai da plantação à fábrica, passando pelos barris onde são envelhecidas. A degustação mostra que uma cachaça premiada não se obtém por acaso!

Seu Eli e os fartos barris de cachaça

Aprender mais sobre a história do Brasil

Além de visitar as fazendas, o público pode reservar um dia (ou mais) para conhecer a cidade de Vassouras, que tem seu conjunto urbanístico tombado pelo IPHAN. A praça principal, chamada Barão de Campo Belo, é o cartão postal da cidade, junto à Igreja Nossa Senhora da Conceição, de 1833. 

O tour histórico-cultural pode ser na companhia de Mariana Crioula, personagem importante resgatada e interpretada pela simpática e inteligente turismóloga Andreia Alves “Pit”. De forma descontraída e envolvente, ela ensina muito sobre os primeiros heróis negros do Brasil.

Colonizada por mineiros, Vassouras foi erguida às custas de mão de obra escrava. Nesse passeio, descobrimos mais sobre o apagamento e o legado que pessoas negras escravizadas deixaram, tomando conhecimento de cada detalhe, cada tijolo colocado nos antigos edifícios.  

A jornada na região central inclui a Rua das Figueiras, árvores centenárias que, ao serem abraçadas, trazem boa sorte; a Casa do Barão de Ribeirão; o Centro Cultural Cazuza; o Museu Casa da Hera; e a antiga estação ferroviária, que funciona atualmente como espaço para eventos, centro cultural e Memorial do Trem. Ali está uma locomotiva que circulou na Estrada de Ferro D. Pedro II, figurinha marcante em fotografias do local. 

A parada para reabastecer as energias pode ser no restaurante Relíquia, que serve de tudo um pouco: do buffet self-service à rodízio de comida japonesa e pizzas.

Rua tem 16 figueiras “da sorte”

Visitar uma casa ligada à Cazuza

Um casarão erguido em meados de 1845 acolheu muita gente e muitos equipamentos públicos ao longo dos anos. Mas foi apenas em 2017 que Lucinha Araújo, mãe do cantor Cazuza, reencontrou o exato endereço onde ela havia nascido. De olho no potencial do edifício, que estava fechado há alguns anos, tratou de transformá-lo em um memorial do filho artista.

Propondo atividades gratuitas, o centro cultural reúne exposições temporárias de novos artistas no piso inferior e exposição permanente do cantor no segundo andar. A sala conta com rascunhos de composições, fotografias, roupas e itens pessoais de Cazuza, além de uma escultura em tamanho real, que personifica o autor de “O Tempo Não Para”. 

Conhecer a casa da primeira mulher investidora no Brasil

Entre as tantas histórias fascinantes da região do Vale do Café, uma mulher em particular se destaca em meio às conversas. É Eufrásia Teixeira Leite, filantropa e conhecida como a primeira mulher investidora do Brasil.

A antiga residência do comissário de café Joaquim José Teixeira Leite, hoje conhecida como Casa da Hera, abriga boa parte de sua história. Ela foi a única herdeira da família, mas fez a fortuna multiplicar para quase duas toneladas de ouro, tendo a ousadia de investir na bolsa de Paris (sendo também uma das pioneiras por lá), entrando no jogo do mercado financeiro numa época em que “lugar de mulher” se limitava ao lar.

Elegante, independente e culta, Eufrásia é um poderoso símbolo feminino do século 19, ecoando até os dias atuais. Sua riqueza contribuiu com a cidade, levando benfeitorias a escola e hospital, além de contribuir com instituições de caridade. A casa onde viveu apenas foi preservada por decreto dela, que tinha apreço por construções históricas e pelo legado familiar. Não casou, não teve filhos e faleceu em 1930.

Ao longo da vida, Eufrásia investiu em estradas de ferro, minas de metais preciosos, agroindústria, indústria têxtil, serviços públicos, setor imobiliário e em ações bancárias. Ou seja, passou por praticamente todos os setores em expansão, garantindo que se tornasse milionária. 

No museu, que tem entrada gratuita, podemos nos encantar com o mobiliário, original e completo da família, uma de trajes de origem francesa e um lindo jardim, onde há um túnel de bambus, conhecido como Túnel do Amor. As produções brasileiras “Presença de Anita” e “Sol Nascente” foram gravadas ali.

Se aproximar da natureza

É claro que os encantos do Vale também reservam trilhas e banhos de cachoeira. Em um trecho com mais de 5 mil hectares de Mata Atlântica, o Parque Estadual Serra da Concórdia, que se divide entre Valença e Barra do Piraí.  

Entre seus principais atrativos estão os mirantes da Serra da Concórdia, a 366 metros de altitude, e o mirante do Barão de Juparanã, a 406 metros de altitude. Para lavar a alma, o público pode recorrer às cachoeiras de Ipiabas, com duas quedas d’água refrescantes; e a de Bonsucesso, mais próxima da entrada do parque. 

 A área protegida também atrai adeptos da observação de aves, atividade que integra o programa Vem Passarinhar, reunindo todos os meses observadores para saírem a campo juntos. 

Foto: divulgação

Descansar em um jardim musical

Um dos lugares mais curiosos para se conhecer no Rio de Janeiro, quiçá no Brasil, é o Jardim Ecológico Uaná Etê, em Engenheiro Paulo de Frontin. Em 135 mil metros quadrados, a harpista Cristina Braga e o músico Ricardo Medeiros criaram 22 jardins temáticos com aquilo que os movem: música e natureza.

Indo além do visual, que é um espetáculo por si só, o espaço cultural oferece experiências sensoriais aos visitantes. Os caminhos do jardim nos convidam para uma dança que une os sons da natureza, o empenho dos ventos e instalações artísticas sonoras e interativas, nos conduzindo a uma jornada de corpo, mente e espírito. 

Cristina e Ricardo: amor com fusão de arte, música e natureza

Do gongo às conchinhas do mar, a vivência consegue tocar e nutrir sentimentos dentro de cada visitante, que vai subindo a montanha numa onda zen e um tanto esotérica. Lá do alto, ganham asas com ajuda de outra instalação artística, além de redes para descansar e uma cama de cordas elásticas entre os eucaliptos. Um embalo de profunda paz.

O Uaná Etê também oferece hospedagem, pique-niques ao ar livre e almoço no charmoso bistrô da casa, que serve refeições feitas com ingredientes orgânicos e locais. 

Passar pela cidade com o “terceiro melhor clima do mundo”

Pode ser que você nunca tenha ouvido falar em Miguel Pereira, mas a pequena notável tem motivos para se orgulhar. O primeiro deles é por possuir o terceiro melhor clima do mundo, título não oficial, mas ressaltado pelo professor que dá nome à cidade entre os períodos de 1915–1918.

Além disso, acolhe muito bem os adeptos de esportes radicais, como downhill, parapente, motocross e mountain bike, sendo parada constante de ciclistas. Parte deles se concentra no bistrô, delicatessen e bike shop Le Vélo Montagne.

Descolado, o espaço serve delícias inspiradas na culinária francesa. Entre as pedidas, risoto de açafrão com filé mignon ao chimichurri e queijo brie derretido; salmão grelhado, arroz negro com crispy de pupunha ao molho de laranja e gengibre; e o vegano espaguete de cenoura, abobrinha e palmito, tomate confit, tomate seco e amêndoas laminadas.

Essa é uma das melhores paradas gastronômicas da região, além de oferecer um bom descanso à beira da lagoa onde se avistam pedalinhos coloridos.

Informações adicionais para a sua viagem

Participando com responsabilidade do processo de reabertura gradual do turismo, os locais se adequam ao novo momento de pandemia da Covid-19 adotando uma nova rotina de funcionamento.

Entre as novas práticas está o limite no número de pessoas, uso obrigatório de máscara por visitantes e colaboradores, medição de temperatura, serviço de refeições em turnos, com mesas espaçadas e porções individualizadas. São priorizadas atividades ao ar livre. Serviços de check-in e checkout são feitos online.

Para quem não optar em se hospedar nas fazendas, há outras opções:

Foto: divulgação

Como chegar no Vale do Café

A principal cidade do Vale do Café é Vassouras. Para quem vai a partir do Rio de Janeiro são 117 km de distância da capital, com acesso pela Via Dutra (BR-116). Após o primeiro pedágio, seguir pela RJ-127 em direção à Paracambi.

A partir de São Paulo são 384 km, com acesso pela Via Dutra (BR-116) até Volta Redonda e Rodovia Lúcio Meira (BR-393). E por Belo Horizonte, são 401 km rodados, com acesso pela BR-040 até Três Rios e BR-393.

As empresas Salutaris, Normandy e Útil têm ônibus partindo de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, respectivamente, em direção à Vassouras.

Para informações sempre atualizadas, visite: instagram.com/valedocafe

Todas as fotos do post são de autoria da jornalista Brunella Nunes
*reprodução proibida

Mirante em Vassouras tem vista privilegiada

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